PLANEJANDO O DESENVOLVIMENTO LOCAL SUSTENTÁVEL

 

José Lázaro de Carvalho Santos[1]

 

RESUMO

 

Na sociedade capitalista consome-se cada vez mais energia utilizando-se os recursos naturais renováveis e não renováveis, geram-se resíduos, impactos ao meio ambiente. Muitos impactos foram gerados decorrentes deste processo que é global, e são impactos ambientais, sociais e econômicos, que se refletem desde a esfera global a local.

O modelo de desenvolvimento desta sociedade, entretanto tem sido questionado atualmente em busca de um chamado desenvolvimento sustentável. Neste trabalho são discutidos: o desenvolvimento sustentável, e o próprio conceito de desenvolvimento; o planejamento para o desenvolvimento local sustentável e a participação da população neste planejamento.

 

Palavras-chave: Desenvolvimento, Sustentabilidade, Meio Ambiente

 

 

1. Introdução

 

 

A sociedade capitalista industrial em que vivemos baseia-se na lógica do lucro e do consumo e vem sendo durante muito tempo sob uma ótica consumista e progressista.  Consome-se cada vez mais energia utilizando-se os recursos naturais renováveis e não renováveis, geram-se resíduos, impactos ao meio ambiente. Porém muitos impactos foram gerados decorrentes deste processo que é global, e são impactos ambientais, sociais e econômicos, que se refletem desde a esfera global a local.

 

Um exemplo é a redução da biodiversidade, poluição de solos e águas subterrâneas, dentre outros impactos no meio ambiente.

 

A Taxa de crescimento da população mundial aumenta em níveis consideráveis, concentrando-se em áreas urbanas, há grandes desigualdades sócio-econômicas, e o aumento da pobreza.

 

O modelo de desenvolvimento desta sociedade, entretanto tem sido questionado atualmente em busca de um chamado desenvolvimento sustentável.

Neste trabalho é discutido o desenvolvimento sustentável, e o próprio conceito de desenvolvimento; o planejamento para o desenvolvimento local sustentável e a participação da população neste planejamento.

 

2. Conceitos e discussões sobre desenvolvimento

 

Por muito tempo o conceito de desenvolvimento foi baseado no desenvolvimento puramente econômico, a partir do final da segunda guerra mundial, entretanto este conceito surgiu num contexto de formação de instituições mundiais de harmonização de interesses e de práticas econômicas, bem como de uma teoria econômica que depositava na ação reguladora do Estado e possibilidade de manutenção de taxas de crescimento mais elevadas. O conceito deu fundamento a uma ideologia altamente otimista que previa o crescimento econômico indefinido, visto como um processo de utilização cada vez mais intensivo de capital, de redução do uso de mão de obra, e de utilização extensiva dos recursos naturais.  Neste sentido, uma das características centrais nele implícita era a total inconsciência com as repercussões ambientais e de degradação ecológica derivada das atividades econômicas. A atividade econômica era vista como um sistema fechado, sem limites em nível de energia e matéria prima (recursos naturais) ou da poluição gerava pelo processo de transformação/consumo.

Houve um domínio desta teoria econômica, em nível mundial, assim ela ocupou grande espaço institucional, dominando ideologicamente a cultura econômica e política tanto de setores tanto conservadores como de extrema esquerda.

Essa situação perdurou, do final da 2a Guerra Mundial até o início dos anos 70.  A natureza era considerada apenas como mataria prima, e então a questão da utilização e preservação dos recursos naturais ficavam à margem da economia. Este suporte teórico foi consolidado pela base da teoria econômica gerada durante o século XIX.

Houve, entretanto uma crítica à irresponsabilidade, e à falta de atenção, com que a teoria econômica enfrentava os problemas de ordem ambiental. Em 1969 um grupo de cientistas de alto prestígio assinou um manifesto que fez eclodir o debate. Seu título, “Blueprints for survival”, chamava a atenção para o fato de que o futuro da humanidade estava em questão.

Uma organização não-governamental, chamada Clube de Roma, algum tempo depois contratou uma equipe de cientistas que elaborou uma projeção assentada sobre as tendências então predominantes; o resultado foi uma inequívoca previsão de catástrofe para as primeiras décadas do Século XXI. O tom alarmista do Limites ao Crescimento desencadeou várias avaliações contrárias, mas o impacto foi inequívoco: a questão natural doravante faria parte da teoria econômica, tanto em nível dos insumos, como dos efluentes e rejeitos.

Em 1973, eis que acontece uma crise energética, durante a crise de uma guerra no Oriente Médio, os preços do petróleo subiram, de maneira vertiginosa, quadruplicando seu preço no mercado mundial. Aconteceu então diante disto um processo de especulação sobre quase todas as matérias-primas básicas, com elevadas altas de preços, afinal o petróleo era a base energética para insumos de industrias e para os transportes. A economia do mundo desenvolvido sofreu então um grande impacto, pois é altamente dependente desses recursos.

Houve naquele contexto, a economia mundial passou a conviver com problemas de natureza universal que se manifestavam de formas diferentes nos países capitalistas e nos países socialistas. Nos países de economia de mercado os principais sintomas de uma profunda anomalia eram as tendências inflacionárias crônicas e uma queda dos níveis de crescimento para patamares muito inferiores aos que tinham prevalecido durante os "30 Gloriosos" anos após a 2a Guerra Mundial.

Os problemas decorrentes dessa particular conjunção de base teórica, ideológica de Estado e interesses econômicos (de grandes grupos que detinham a vanguarda tecnológica),foi a exploração irracional de recursos naturais e energia, estagnação da pesquisa tecnológica relativa a poupança de energia, tecnologias apropriadas, intensificação do desperdício de capitais e trabalho através da obsolescência planejada. Conjugadas, deveriam levar à estagnação do crescimento econômico por um processo de dilapidação dos excedentes econômicos e da base natural. A economia mundial passou, através desse processo, de uma crise econômica com origens na realização do produto (crise "keynesiana") a uma crise com origem na reprodução (crise "ricardiana"), que é a crise que tem origem na elevação dos custos de produção e conseqüente degradação da riqueza social global.

O resultado de tal quadro de dilemas foi a emergência de duas concepções concorrentes: uma, que se convencionou chamar de "neoliberalismo", que atuava predominantemente sobre a contenção de custos nas diversas economias, impondo lógicas de austeridade; outra, que ainda busca caminhos práticos, inspirada na tradição institucionalista da teoria econômica, e que ficou conhecida como "desenvolvimento sustentável". Esta corrente busca combinar os mecanismos de correção econômica, com medidas de controle administrativo e sistemas de decisão pactuada entre os diversos atores da sociedade civil: Estado, empresas e organizações não-governamentais. Uma outra peculiaridade importante do desenvolvimento sustentável é que ele considera inevitável o questionamento da radical desigualdade dos modos de consumo entre as diversas economias nacionais, e sabe que será inevitável tornar essa discussão parte dos projetos de desenvolvimento futuro, já que existe uma impossibilidade – de ordem energética e material – de extensão dos modos de consumo dos países ricos aos países pobres, dadas as atuais estruturas tecnológicas.

Um intenso processo de revisão do conceito de desenvolvimento econômico houve então, a partir de então, fazendo-se críticas, no ambiente científico/intelectual e profissional. Uma dimensão política e ética foi percebida, o que tinha sido totalmente ignorado pela teoria econômica. Passou-se de um ambiente gerido pelo conceito estreito de "desenvolvimento econômico" (ou seja, puramente econômico e sem considerar o esgotamento dos recursos naturais) para iniciar a exploração do conceito mais amplo de "desenvolvimento sustentável" (que se preocupa com a exploração e utilização destes recursos).

Este “desenvolvimento sustentável” é definido, de acordo com o Relatório Bruntland de 1987, como “aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem a suas próprias necessidades”. Ele traz dois conceitos-chave: 1) o conceito de “necessidades”, sobretudo as necessidades essenciais dos pobres no mundo, que devem receber a máxima prioridade; 2) a noção das limitações que o estágio da tecnologia e da organização social impõe ao meio ambiente, impedindo-o de atender às necessidades presentes e futuras.

O conceito de desenvolvimento sustentável surgiu a partir de uma definição construída no Relatório Brundtland, de 1987, que não diz respeito apenas ao impacto da atividade econômica no meio ambiente. A participação dos movimentos sociais, de ONG´s foi de fundamental importância na pressão e nas discussões por melhore qualidade de vida e de preservação do meio ambiente, e conduziu a discussão sobre o desenvolvimento econômico adequada a algumas exigências principais, estabelecidas no Relatório Brundtland a serem tomadas pelos Estados nacionais:

a)limitação do crescimento populacional; b) garantia de alimentação em longo prazo; c) preservação da biodiversidade e dos ecossistemas; d) diminuição do consumo de energia e desenvolvimento de tecnologias que admitem o uso de fontes energéticas renováveis; e) aumento da produção industrial nos países não industrializados á base de tecnologias ecologicamente adaptadas; f) controle da urbanização e interação entre campo e cidades menores; g) satisfação das necessidades básicas.

As medidas propostas em nível internacional foram as seguintes: h) as organizações de desenvolvimento devem adotar a estratégia de desenvolvimento sustentável; i) a comunidade internacional deve proteger os ecossistemas supranacionais como a Amazônia, a Antártica, os oceanos, etc.; j) banimento das guerras; k) implantação de um programa de desenvolvimento sustentável pela a ONU.

 Sabe-se que inicialmente sua discussão esteve bastante atrelada à preservação da natureza, apesar de não se restringir a este foco, pois ele traria a visão de promover a harmonia entre os seres humanos e entre a humanidade e a natureza.

Houve uma série de discussões da comunidade internacional sobre os limites do desenvolvimento do planeta, desde a década de 1960, que tiveram início com discussões sobre a degradação do meio ambiente natural.  Desta resultou a conferência mundial da ONU, em Estocolmo em 1972, vale ressaltar que neste mesmo ano se reuniu o Clube de Roma para tratar dos Limites de Crescimento do planeta, que apontavam para um esgotamento dos recursos naturais em 100 anos.

Em 1973, Maurice Strong, lançou o conceito de ecodesenvolvimento cujos princípios foram formulados por Ignacy Sachs. Ampliou-se e diversificou-se então o conceito de desenvolvimento, que não seria apenas econômico. Entretanto, embora Sachs tenha apontado estas premissas, ele não chega a propor nenhum modelo de planejamento ou gestão estratégica para o desenvolvimento sustentável. Os caminhos do ecodesenvolvimento, segundo suas premissas seriam: 1) satisfação das necessidades básicas; 2)solidariedade com as gerações futuras; 3) participação da população envolvida; 4) preservação dos recursos naturais e do meio ambiente; 5)segurança social e respeito a outras culturas; 6) programas de educação. Havia uma grande preocupação com as regiões subdesenvolvidas, trazendo uma crítica à sociedade industrial, e estas discussões a partir dos caminhos para o ecodesenvolvimento é que levaram ao conceito de desenvolvimento sustentável, que surgiu no Relatório Bruntland. Vale ressaltar, entretanto que tal relatório não apresenta críticas á sociedade industrial, que caracterizam os documentos anteriores a este relatório; demanda crescimento tento em países industrializados como em desenvolvimento, inclusive ligando a superação da pobreza nestes ao crescimento daqueles, o que foi aceito pela comunidade internacional.

A conferência das nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (UNCED) realizada no Rio de Janeiro, em 1992, discutiu-se o futuro do planeta, o desenvolvimento sócio-econômico e as alterações no meio ambiente global. As discussões e proposições culminaram num documento denominado Agenda 21. Esta constitui um plano de ação com metas aceitas universalmente para o período pós-1992 e entrando pelo século XXI. Ela contém um compromisso político no nível mais alto do que diz respeito à implementação do desenvolvimento sustentável, inclusive já sendo implementado atualmente em algumas cidades brasileiras.

O desenvolvimento sustentável se refere principalmente às conseqüências dessa relação na qualidade de vida e no bem-estar da sociedade, tanto presente como futura. Por isto, atividade econômica, meio ambiente e bem –estar social formam o tripé básico do seu conceito. Ele tem várias dimensões: cultural, política, econômica, ambiental, espacial e social (BRASIL, 2002) (ver figura).

 

 

 

Dimensões do Desenvolvimento Sustentável

 

 

 

 

 

 

 


Fonte: BRASIL (2002)

 

Em número de cinco são as dimensões da sustentabilidade apontadas por Sachs (1993), caracterizadas por:

 

1)Sustentabilidade social: consiste na criação de um processo de desenvolvimento civilizatório baseado no ser e que seja sustentado por uma maior eqüidade no ter, nos direitos e nas condições das amplas massas da população, diminuindo a distância entre os padrões de vida dos mais ricos e dos mais pobres;

2)Sustentabilidade econômica: possibilita uma eficiência macro-social, reduzindo os custos sociais e ambientais;

3)Sustentabilidade ambiental: aumenta a capacidade de uso dos recursos naturais através da utilização de recursos renováveis e da limitação do uso de recursos não-renováveis ou ambientalmente prejudiciais;

4)Sustentabilidade espacial: está voltada a uma configuração rural-urbana mais equilibrada;

5)Sustentabilidade cultural: respeita a continuidade das tradições culturais e até mesmo a pluralidade das soluções particulares.

 

Segundo afirmação do próprio Sachs (SAMPAIO, 2000), “não se pode ser tão rigoroso numa época em que acontecem mudanças paradigmáticas como é neste final de milênio”. Dessa forma, aceita-se que um determinado planejamento pode ser considerado na direção do desenvolvimento sustentável, se pelo menos contemplar parcialmente algumas dessas dimensões da sustentabilidade.

Acredita-se que não é possível aplicar estratégias que levem-nos, de uma só vez a um “desenvolvimento sustentável”, mas deve haver uma revolução que se concretizaria numa evolução gradativa. È preciso haver, entretanto a integração entre o setor empresarial (comércio e indústrias) e a comunidade, a fim de que os programas de melhorias sócio-ambientais, que se dê em um local ou região aconteça de maneira conjunta e harmoniosa. O papel do poder público é essencial, tanto no âmbito municipal, como estadual e nacional. Ele deve atuar para que de proporcione adequadas condições para que se cumpra o programa desde a criação e instituição de uma legislação até a realização de obras de infra-estrutura e serviços à população, por exemplo.

Medidas de base para a implantação de um programa mínimo adequado de desenvolvimento sustentável devem ser consideradas tais como: uso de novos materiais na construção; reestruturação da distribuição de zonas residenciais e industriais; aproveitamento e consumo de fontes alternativas de energia (solar, eólica e geotérmica, por exemplo); reciclagem de materiais aproveitáveis; combate ao desperdício de água e de alimentos; menor uso de produtos químicos prejudiciais à saúde nos processos de proteção alimentícia (segurança alimentar).

A fim de que se realize um programa exige a conscientização e participação do governo (poder público), da iniciativa privada, da sociedade civil organizada e da população em geral. Contudo as estratégias traçadas não podem ser abandonadas pelos interesses gerais da população e passarem geridas por interesses de mercado, o que configura uma situação de dominação predatória do capital. Deve se considerar, sobretudo que os requisitos básicos do conceito de desenvolvimento sustentável é a satisfação das necessidades básicas da população, e principalmente dos pobres.

 

 

3. A Abordagem Integrada de Desenvolvimento Sustentável

 

Dentro desta abordagem integrada, como já se falou um pouco anteriormente, o desenvolvimento não pode ser encarado como meramente econômico, pois há de se considerar conjuntamente, de maneira integrada, o desenvolvimento social (educação, saúde, cultura, etc.) e o ambiental (preservação e utilização racional dos recursos naturais, busca por recursos renováveis, etc.). Ver figura a seguir (BRASIL, 2002).

 

 

Abordagem Integrada Sobre o Desenvolvimento Sustentável

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Fonte: BRASIL (2002)

 

 

3.1 Princípios para o Desenvolvimento Sustentável

 

a) Aspectos Ecológicos

 

• Dependência: Humanos são dependentes de um meio ambiente limpo e saudável, para que os bens e serviços vitais sejam disponibilizados para o bem-estar geral (qualidade de vida);

• Limites Biofísicos: Existem limites biofísicos definidos para que a biosfera (ou mesmo um ecossistema) possa suprir recursos ou absorver a produção de resíduos da atividade humana;

• Capacidade de suporte (Carry capacity): Os limites biofísicos caracterizam uma capacidade de carga do sistema ambiental. Esta capacidade limita o número de indivíduos de uma determinada espécie em um sistema ambiental, para uma dada taxa de utilização dos recursos naturais;

• Interdependência: Interdependência homem-Natureza.

b) Aspectos Sociais e Éticos

 

• Equidade inter-gerações: Compromisso entre gerações atual e futuras;

• Equidade intra-gerações: Compromisso entre indivíduos de uma mesma geração;

• Justiça Ecológica: Ações humanas não devem ser nocivas a outras espécies (direito inerente da sobrevivência de outras espécies).

 

c) Aspectos Políticos

 

• Participação: Desenvolvimento sustentável requer uma participação ampla dos diferentes setores da sociedade;

• Cooperação: Cooperação entre diferentes atores sociais, nações, comunidades, etc..

• Problemáticas fundamentais: Ações sustentáveis devem ser direcionadas à raiz de problemas.

 

4. O Planejamento para o Desenvolvimento Local Sustentável

 

O planejamento pode ser definido como um processo ordenado e sistemático de decisão que antecipa o futuro e define ações que viabilizam objetivos que se pretende alcançar (BUARQUE apud SAMPAIO,1990).

 Incorpora e combina uma dimensão política e uma dimensão técnica, o que resultaria num processo essencialmente técnico e político;

 

Ele pode ser visto como um processo que seleciona um curso de ação, reorientando um conjunto de meios para atingir o seu fim; isto é, o planejamento é uma metodologia (um processo) e não um fim em si mesmo;

 

 

As ações devem ser planejadas como instrumentos para aproximar duas dimensões – o plano teórico e o plano prático; uma espécie de práxis para reduzir o espaço que os separa, a fim de que se reduza a segregação sócio-econômica.

 

Entretanto para que se alcance o desenvolvimento sustentável é necessário haver participação dos agentes sociais em conjunto (governo, setor provado/empresas, sociedade civil organizada e a população), para que este seja eqüitativo e atenda ás necessidades coletivas, comuns a toda a população, de acordo com suas necessidades. Isto exige um planejamento participativo.

 

“O Planejamento Participativo, seria um processo que também envolve estratégias no seu âmago. Inclusive, a principal estratégia passa a ser a própria participação, que é reedificada na idéia de que todas as pessoas são afetadas pelas decisões, e assim todos têm o direito de participar do processo decisório”(GODIM apud SAMPAIO, 2000).

 

A participação passa a ser considerada como condição essencial não só para formulação de políticas mais eqüitativas e democráticas, mas também para a própria eficácia, eficiência e efetividade do planejamento;

 

Portanto o desenvolvimento local sustentável. Foca-se a localidade como palco para prática de ações que implementem o desenvolvimento local e de que forma os atores sociais, as organizações e, grupos locais situados na esfera pública ou privada devem atuar e planejar os meios de realizar tais ações. 

 

A participação redireciona o desenvolvimento, independente da oscilação da personalidade do governante, seguindo uma linha continua, definida pelas necessidades básicas da população, assim tornando legítimo o desenvolvimento.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Desenvolvimento Sustentável

 

Sustentável                                   ¹                      Sustentado
 

                                                                Que pode se sustentar                                           Que está em sustentação

 

 

 


                                                                                                       Auto-sustentado

 

  • Desenvolvimento sustentável é uma alternativa ao crescimento econômico tradicional
  • Desenvolvimento sustentável exige uma modificação de hábito e atuações de sociedade (indivíduo, nação, etc.)

Fonte: BRASIL (2002)

 

Há a compreensão de que uma estratégia política de desenvolvimento regional não pode se ater somente em ações tradicionais, como linhas de créditos, incentivos fiscais ou de investimentos na formação bruta de capital fixo.

 

Ela deve também, e fundamentalmente, procurar manter e ampliar o estoque de capital social em sua comunidade, fortalecendo a auto-organização social, estimulando a prática de soluções colaborativas para problemas comuns e promovendo a participação e a abertura ao diálogo com os diversos integrantes das comunidades regionais.

 

Exemplos que podem ser citados são as ações desenvolvidas pelo Programa Faz Cidadão – Governo do Estado da Bahia, que atuou em alguns municípios pobres baianos para se gerar desenvolvimento local.

 

É preciso também formar comunidades voltadas à colaboração e a participação mesmo que insto a aconteça num longo espaço de tempo, o que pode ocorrer gradativamente. É preciso que se tenha comunidades compostas por indivíduos que entendam a importância do trabalho em conjunto e do civismo, abertos à mudança e preparados para criarem e inovarem em prol do desenvolvimento local.

 

 

 

De certa forma a cidade está recuperando a dimensão mais expressiva da política e da democracia: a democracia participativa, onde grande parte das opções concretas relacionadas com as condições de vida e a organização do nosso cotidiano passa a ser geridas pelos próprios cidadãos. Isto, realmente, implicará numa série de mudanças institucionais: além do Prefeito e de uma Câmara de Vereadores, as cidades terão que se dotar de formas diretas de articulação entre os atores sociais do município com a criação de fóruns de desenvolvimento, participação dos empresários, de sindicatos, de conselhos profissionais, instituições de ensino e pesquisa, e assim por diante.

 

5. Recuperação da Dimensão Comunitária

 

Quando se transfere a cidadania para níveis cada vez mais altos, e cada vez mais distante do cidadão, transfere-se o poder significativo para as mega-estruturas multinacionais ou transnacionais e diluir a cidadania no anonimato e ninguém se solidariza no anonimato. Como diz o saudoso professor Milton Santos: “O que globaliza separa; é o local que permite a união”. (SANTOS, 1994),

 

Quanto à abertura das prefeituras à participação popular, os governos nacionais e as agências internacionais deverão se empenhar mais para garantir que experiências como do orçamento participativo de Proto Alegre e de balo Horizonte sejam implantadas e a população possa definir prioridades na alocação de parte dos recursos públicos para realização de intervenções de infra-estrutura prioritárias e necessárias à melhoria das condições de vida nas favelas.

 

As receitas municipais das cidades pobres, especialmente dos pequenos e médios municípios, são muito inferiores às das cidades ricas, tendo estas um orçamento muito superior[2]. Nestes municípios pobres acontece mais comumente a influência dos detentores do capital, pessoas ricas e influentes, sobre o poder público (fragilizado) para defender interesses especulativos, em detrimento dos interesses dos pobres, e da qualidade de vida, e além disto a corrupção pode ser maior (o que não quer dizer que nas grandes cidades não ocorra isto, pelo contrário, a questão pode ser até mais complicada).

 

A perspectiva de vida dos pobres é outra área que os governos precisam agir. O emprego é considerado a causa da migração das pessoas para as cidades sendo a principal preocupação dos governantes. É preciso gerar renda e melhores condições de vida para a população, porém com qualidade ambiental e condições sociais dignas.

 

Não basta buscar o desenvolvimento econômico, a partir da atuação de grandes empresas, desconsiderando normas ambientais e más condições de trabalho, com o discurso de garantir emprego e renda aos cidadãos. Deve haver uma preocupação com o meio ambiente local integrada às propostas de geração de emprego e renda.

 

A implantação da Agenda 21 local para o meio ambiente e o desenvolvimento , como decidido na Conferência mundial ECO-92, seria um outro grande passo, sendo que tem de haver o levantamento das condições sócio-econômicas e ambientais da população pelos governos, em consulta à população. Muitas cidades vêm implantando esta agenda, em 2002 já eram 6.416.

Uma maior aproximação das agências internacionais com os municípios, também é necessária e isto seria um passo importante na solução de problemas locais, como das favelas.

 

A recuperação dos valores, a reconstituição ética do desenvolvimento, ou a sua re-humanização, passa pela reconstituição dos espaços comunitários.

 

 

A recuperação dos valores éticos exige que para o ser humano o outro volte a ser um ser humano. Este processo de reconhecimento do outro, não se dá no anonimato. E o anonimato se ultrapassa no circuito de conhecidos, na comunidade (DOWBOR,1996). É essencial que se promova

a recuperação da cidadania, o “empowerment”, através do espaço local, do espaço de vida do cidadão.

 

Atualmente há uma grande necessidade de se retomar esse espaço compartilhado no cotidiano para não perdermos a nossa identidade, as nossas referências sociais – o nossos “espelhos”. O tema da comunidade é presente.

 

6. Conclusões

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O modelo de desenvolvimento da sociedade capitalista tem sido questionado desde algumas décadas atrás. Ainda se busca o chamado desenvolvimento sustentável.

 

Porém, para que isto ocorra há de se pensar no planejamento para o desenvolvimento local sustentável e a participação da população neste processo de planejamento, considerando-se os aspectos sociais, econômicos e ambientais de forma intrínseca, integrada. As ações para se alcançar a sustentabilidade devem ser planejadas como instrumentos para aproximar o plano teórico e o plano prático a fim de se reduzir o espaço que os separa, a fim de que se reduza a segregação sócio-econômica. Então, uma Agenda 21 local seria um importante instrumento. Avanços estão ocorrendo, o Brasil e em várias partes do mundo, entretanto um longo caminho ainda deve ser percorrido para que haja um amadurecimento político, técnico e cultural, especialmente nos países periféricos.

 

 

7. Referências

 

BRASIL, Antônio C.P Júnior. Fundamentos para o Desenvolvimento Sustentável. Brasília: CDS/UnB, 2002.

CAPORALI, Renato. Do Desenvolvimento Econômico ao Desenvolvimento Sustentável. Disponível em: http://www.unilivre.org.br/banco_de_dados/textos/Forum/decosus.htm, página consultada em 10/07/2005.

CAVALCANTI , C. (Org.). Desenvolvimento e Natureza: Estudos para uma Sociedade Sustentável, Cortez Editora, 1994.

DOWBOR, Ladislau. Educação, tecnologia e desenvolvimento. In: Lúcia Bruno (Org.). Educação e trabalho no capitalismo contemporâneo. São Paulo: Atlas, 1996.

HOGAN, D. J.e VIEIRA, Paulo Freire (Orgs.) Dilemas Socioambientais e Desenvolvimento Sustentável.

PLANEJAMENTO DO DESENVOLVIMENTO LOCAL SUSTENTÁVEL. Notas de Aula da Disciplina Transportes, Cidade e Sustentabilidade. Mestrado em Engenharia Ambiental Urbana – MEAU. UFBA. 2005.

SACHS, Ignacy. Ecodesenvolvimento: Crescer sem Destruir.1993.

SANTOS, Milton. Técnica, espaço, tempo: globalização e meio técnico-científico internacional.São Paulo : Hucitec, 1994.

SHEEHAN, Molly O´Meara. Unindo Cidades Divididas. Revista Estado do Mundo, 2003. Disponível em: <http://www.wwiuma.org.br/estado_do_mundo.html>, consulta em 01/07/2005.

 

 



[1] Urbanista, pós-graduado em Gestão Municipal pela UNEB, Mestrando em Engenharia Ambiental Urbana - UFBA

[2] A própria divisão das receitas tributárias entre os entes da federação: União, Estados e municípios, merece uma discussão mais aprofundada, que é tema para uma reforma tributária. Muitos municípios têm a maior parte de suas receitas provenientes de repasses da União, e se não têm fontes de arrecadação e capacidade para arrecadar a gerir as receitas e despesas, a situação é pior.