O MUNICÍPIO E AGESTÃO DO SISTEMA DE LIMPEZA URBANA[1]

José Lázaro de Carvalho Santos[2]

 

RESUMO

O serviço de limpeza urbana interfere na qualidade ambiental da população de um município. Este trabalho aborda um tema de grande relevância na gestão municipal, especialmente quanto a gestão de resíduos sólidos urbanos inserida no serviço de limpeza urbana. A estrutura de gestão deste serviço é apresentada de acordo com as exigências de estrutura técnica, normativa e institucional, necessária e as recomendações que constam dentro de um planejamento para este setor do serviço público municipal, observando-se a necessidade de uma gestão eficiente adequada à realidade local.

Palavras-chave: 1. Limpeza Urbana 2.Gestão - Resíduos Sólidos

 

 

1.  Limpeza urbana e sustentabilidade ambiental

 

Nos últimos anos observa-se que as discussões sobre a oposição (dicotomia), entre a natureza e a cidade, se tornaram cada vez mais exacerbadas.

 

Atualmente enfrenta-se um processo de desenvolvimento acelerado e a crescente concentração da população nos grandes centros urbanos, entretanto exige uma necessidade de planejamento da expansão urbana, pois a urbanização é um processo que traz sérias conseqüências ao meio ambiente, com implicações na qualidade de vida humana. Segundo OLIVEIRA (2002) entre os fatores de agravamento do comprometimento da qualidade ambiental destaca-se a grande geração de lixo e as conseqüências de seu trato inadequado, tanto sob o ponto de vista ambiental como econômico e social. Por este motivo, o lixo passou a ser uma das questões prioritárias da maioria das administrações municipais.

 

O enfrentamento do problema “lixo” extrapola a simples eliminação dos locais onde eles são concentrados, os chamados lixões. É preciso considerar desde a sua origem, quando não é descartado nas residências e locais de lazer ou trabalho, até o destino final, quando não encontrando outro uso é aterrado.

 

Diante dos hábitos da sociedade capitalista globalizada em que se vive, cada vez mais produtos industrializados são consumidos diariamente, em várias regiões do mundo, conforme a cultura, a renda, os hábitos e o nível de industrialização de cada população. O consumo destes produtos implica em geração de resíduos o que requer atenção para o seu gerenciamento a fim de que não causem impactos ambientais e conseqüentemente comprometam a qualidade de vida da população (poluição olfativa, visual, cria barreiras à acessibilidade, etc.). Na figura 01, a seguir, por exemplo, é possível observar que o lixo quando tem disposição inadequada causa barreiras à acessibilidade no espaço urbano e ainda gera poluição visual. Portanto trata-se de uma questão que faz parte de uma série de implicações sócio-ambientais, que desde o final do século passado têm sido discutidas dentro de um conceito de desenvolvimento sustentável, e te ainda despertado a atenção do poder público e de vários setores da sociedade civil organizada, diante da gravidade da questão (FARIAS e FONTES, 2003).

 

 Figura 01 – Disposição inadequada de lixo em via pública: Rua Direta da Engomadeira – Salvador-BA. Fonte: SILVA (2003)

 

A lógica de progresso da humanidade baseado no modelo de produção e acumulação capitalista vem acompanhada de impactos ambientais que se refletem no meio ambiente, pois sua exploração de forma indiscriminada, é colocada como sinônimo de desenvolvimento. Entretanto os recursos naturais e ambientais[3] são limitados com tendência ao esgotamento gradativo. Esta visão de desenvolvimento em prática na nossa sociedade “consumista” vem sendo criticada nas últimas décadas, e um enfoque maior é dado à preservação do meio ambiente e à utilização consciente dos recursos naturais e ambientais, o que demonstra que deve haver uma reformulação na visão de impacto ambiental das atividades humanas, que passa também a incorporar todos os impactos das atividades de produção e de consumo, desde a extração da matéria prima, os processos industriais, o transporte e o destino dos resíduos de produção e também o do produto após sua utilização (CARNEIRO et al., 2001).

 

O desenvolvimento da sociedade moderna implicou num aumento exacerbado de consumo sem preocupação com os impactos ambientais que possam causar ao planeta, produzindo-se muitos rejeitos que causam danos ao meio ambiente e à saúde pública. Hoje no séc. XXI observa-se que é preciso minimizar a geração de resíduos e reutilizá-los. Um exemplo da utilização racional e sustentável dos resíduos é a utilização e a reciclagem que visam o aproveitamento dos resíduos pelo seu retorno ao processo produtivo evitando a passagem descontrolada de materiais e objetos usados - os resíduos – para o meio ambiente.

 

A Conferência sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente das Nações Unidas (Rio 92) consolida através da Agenda 21[4], a visão de que o desenvolvimento sustentável não apenas demanda a preservação dos recursos naturais, mas o desenvolvimento socioambiental (aquele que integra as questões sociais) de modo a garantir para as gerações futuras iguais condições de desenvolvimento, mas também uma equidade no acesso aos benefícios do desenvolvimento para outras gerações. O desenvolvimento sustentável, do ponto de vista ambiental, é visto como um desenvolvimento que traz menor impacto para o meio ambiente, do qual depende das comunidades que nele estão inseridas.

 

Por ser uma questão que compromete a sustentabilidade ambiental em vários países, inclusive no Brasil, a discussão sobre a gestão dos resíduos sólidos está inserida do tema da sustentabilidade dos municípios, pois :

“segundo a Agenda 21 Brasileira o desafio da sustentabilidade nas cidades brasileiras ainda se impõe no sistema de limpeza urbana. Hoje, quando a média da produção de resíduos domésticos já é de um quilo por habitante/dia a coleta chega a mais de 100 mil toneladas diárias (cerca de 20% do lixo doméstico não é coletado). De todo o lixo coletado cerca de 50% vai para lixões a céu aberto, 25% para aterros mais ou menos adequados e, para a reciclagem, menos de 1%” (BRASIL, 2000, apud  FARIAS e FONTES, 2003).

 

Daí se observa que a geração dos resíduos apresenta-se como um dos principais problemas presentes na nossa sociedade, ressaltando-se que são necessárias políticas públicas para enfrentar esta questão, porém atentando para a gestão destes resíduos.

 

Segundo o IBAM (2001):

 

“(...) A limpeza urbana, em particular, por vezes é vista predominantemente como fator de embelezamento das vias públicas. Em verdade, o tratamento de resíduos e dejetos e sua destinação final apropriada são essenciais à eliminação de focos transmissores de doenças e à preservação do meio ambiente. (...) Para uma instituição especializada como a Organização Mundial de Saúde (OMS), saneamento e o controle de todos os fatores do meio físico onde o homem habita, que exercem ou podem exercer efeitos prejudiciais ao seu bem-estar físico, mental ou social. Dentro deste enfoque, a limpeza urbana pode ser alinhada entre as principais funções da Administração Pública no campo da engenharia sanitária. Só que este serviço não tem merecido a atenção necessária por parte do Poder Público, contando com orçamentos quase sempre reduzidos. Para enfrentar a situação, administradores e população devem começar a discutir objetivamente o problema, conscientes de suas responsabilidades e de que o bom funcionamento do serviço de limpeza urbana é imprescindível (...)”.

 

 

Portanto deve-se entender que o serviço de limpeza urbana é mais do que um fator de embelezamento de vias públicas, estando também relacionado à questão da saúde pública, e envolve além do poder público, a população, e toda a sociedade civil organizada.

 

2.  Avaliação Quantitativa da Disposição dos Resíduos Sólidos no Brasil

De acordo com a pesquisa Nacional de Saneamento Básico (IBGE, 2000 apud IBAM, 2004) estimou-se que são geradas mais de 157 mil toneladas de lixo domiciliar e comercial por dia. Porém, 20% da população brasileira ainda não conta com serviços de coleta regulares. Os resíduos sólidos urbanos então teriam a seguinte destinação, após a coleta, de acordo com a tabela a seguir (IBGE, 2000 apud IBAM, 2004):

 

Tabela  01  Destinação final dos resíduos sólidos urbanos no Brasil

Destinação final

Quantidade (%)

depositados em aterros sanitários

47%

depositados em aterros controlados[5]

23,3%

depositados em lixões

30,5%

depositados para compostagem

0,4%

depositados  para triagem

0,1%

Fonte: IBGE, 2000 apud IBAM, 2004

Considerando-se que na maior parte dos municípios brasileiros ainda existe lixões conforme a tabela a seguir.

 

Tabela 02 – Destinação final dos resíduos sólidos nos municípios brasileiros (%)

Destino final

Quantidade (%)

lixões

59%;

aterros sanitários

13%

áreas alagadas

0,6%

aterros especiais

0,3%

programas de compostagem

2,8%

incineração

0,2%.

Fonte: IBGE, 2000 apud IBAM, 2004

O Diagnóstico Analítico da Situação da Gestão Municipal de Resíduos Sólidos no Brasil, realizado pela Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental, do Ministério das Cidades, analisa dados das Pesquisas Nacionais de Saneamento Básico – PNSB de 1989 e de 2000 e demonstra que, aconteceu nos últimos anos um aumento na quantidade de lixo coletado, em parte decorrente do aumento dos índices de coleta e em parte decorrente de mudanças nos padrões de consumo, pois se consome muito mais embalagens e produtos descartáveis nos dias atuais do que há dez anos atrás, por exemplo. Uma informação que pode confirmar esta situação é que a massa de lixo coletada se ampliou de 100 mil toneladas em 1989 para 154 mil toneladas em 2000 – o que representa um crescimento de 54%, entretanto entre 1991 e 2000 a população cresceu 15,6%.

 

No que se refere ao tratamento e à destinação final dos resíduos sólidos coletados, considera-se que houve uma evolução nos últimos dez anos conforme as Pesquisas Nacionais de Saneamento Básico – PNSB de 1989 e de 2000 (Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental, 2003). O percentual de resíduos sólidos destinado aos aterros sanitários passou de 15,8% dos resíduos coletados para 47,1%. Portanto demonstrou-se que da maior massa de resíduos sólidos concentrados está concentrada em algumas cidades, que agregam grande capacidade técnica e econômica e que substituíram a destinação nos lixões para aterros sanitários nos últimos anos. Todavia, os municípios com menos de 20 mil habitantes, que eram 4.026 em 2000, na sua maioria, depositam os seus resíduos em lixões (em 68,5% dos casos), entretanto são responsáveis pela coleta de apenas 12,8% do lixo coletado em todo o país, representando, portanto uma pequena parcela (Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental, 2003).

 

3. As Atribuições do Poder Público Quanto a Limpeza Urbana

 A Constituição Federal do Brasil (BRASIL, 1988) nos seus incisos I e V do art. 30 estabelecem como atribuição municipal legislar sobre assuntos de interesse local, especialmente quanto à organização dos seus serviços públicos. De modo geral, cabe ao município a responsabilidade pela gestão dos resíduos sólidos urbanos que lhe compete, sendo que a partir daí é possível organizá-los, definindo as condições e regras para executá-los (AZAMBUJA, 2002). Define-se então a competência do município quanto ao gerenciamento dos serviços de limpeza urbana, como tradicionalmente ocorre no Brasil (IBAM, 2001).

 

Sendo o município o titular privativo deste serviço, pode então outorgar a prestação do mesmo, de acordo com Azambuja (2002, p. 27-28):

 

“(..) a entidades públicas (autarquias, empresas públicas ou de economia mista) ou ainda a empresas privadas através dos regimes de concessão, permissão ou autorização. A concessão de serviço público, com base no art. 32 da Lei no 8987/95, é um contrato administrativo pelo qual a administração confere a um particular o exercício de um serviço público, para que o explore pelo prazo e nas condições contratuais, remunerando-o pela própria exploração do serviço (...)”.

 

É uma crescente tendência no setor de saneamento básico, como, por exemplo, no setor de gestão de resíduos sólidos o fato de delegar a coleta, tratamento e disposição final para empresas privadas (AZAMBUJA, 2002). Entretanto, segundo Azambuja (2002, p. 28) ocorre que:

 

 “(...) a falta de recursos financeiros por parte dos municípios muitas vezes impede que se faça todo o ciclo dos serviços de limpeza, contratando somente a coleta e ou disposição final. Em muitos casos, descritos por Bianchini (2002), há uma grande descontinuidade na contratação destes, geralmente emergenciais, por prazos determinados, que inviabilizam os investimentos pelas empresas privadas em tecnologias e equipamentos a longo prazo (...).

 

Quando se trata do caso de grandes aglomerações urbanas, em particular nas Regiões Metropolitanas, o destino final do lixo pode tornar-se um problema sério, geralmente afetando vários municípios (IBAM, 2001). O Governo Estadual pode intervir, então, cuidando das integrações necessárias, como por exemplo no financiamento de equipamentos e na construção de aterros sanitários aos municípios.

 

Os Municípios interessados ainda podem realizar consórcios municipais para tratar da questão, o que vem a evitar duplicações e irracionalidades. A integração entre os municípios pode trazer vantagens que transcendem os limites físicos dos municípios, pois traz maior amplitude do que a soma de ações municipais isoladas (AZAMBUJA, 2002). Assim, é feita uma cooperação entre aqueles que têm interesses e necessidades comuns, que significa encontrar as soluções para as questões referentes à limpeza urbana.

 

Os investimentos do consórcio intermunicipal são então divididos entre os municípios e os custos operacionais do sistema passarão a ser mais baixos (IBAM, 2001). Estes consórcios intermunicipais são entidades administrativas de direito privado que seriam responsáveis pela destinação final dos resíduos sólidos numa área prevista em um dos municípios, com aplicação de recursos dos mesmos, decidido de acordo com suas negociações. Tem sido comum observar que muitos municípios que têm uma proximidade geográfica e interesses comuns quanto à disposição destes resíduos formarem consórcios intermunicipais (PAULICS, 2000). A figura deste consórcio tem possibilitado uma cooperação técnica e administrativa e otimização dos recursos financeiros dos municípios, para a construção e gestão de aterros sanitários, até mesmo como recomendação dos órgãos financiadores das obras de construção destes aterros. Entretanto, podem haver alguns obstáculos a esta iniciativa como por exemplo a falta de articulação política, a falta de responsabilidade dos gestores, a falta de capacidade técnica e as divergências de interesses político partidários (PAULICS, 2000).

 

De acordo com o IBAM (2001) os Governos Federal e os governos estaduais podem desempenhar um importante papel como auxiliares do município, promovendo algumas medidas, tais como:

- estabelecendo as normas gerais que serão adotadas como princípios orientadores;

- tornando acessíveis os programas de financiamento para serviços de limpeza urbana.

 

Entretanto é preciso formas de administração e fiscalização necessárias para adequar as propostas às realidades regionais e locais.

 

 

4.  O Conceito de Gestão inserido no Sistema de Limpeza Urbana

 

Estabelecido há muito tempo no ambiente profissional, o conceito de gestão está bastante atrelado à administração de empresas (gestão empresarial), e vem, de maneira crescente adquirindo popularidade, e sendo utilizado junto com outros campos do conhecimento (SOUZA, 2003). Este mesmo autor afirma que no Brasil, desde a segunda metade da década de 80 vem se intensificando o uso de expressões com gestão urbana, gestão territorial, gestão ambiental, gestão educacional, gestão de ciência e tecnologia e outras tantas. Segundo Azambuja (2002, p.27):

 

 “Nos dias atuais, a gestão poderia ser entendida, como a otimização dos recursos disponíveis para alcançar os objetivos de uma organização ou empresa. O termo gestão dá a conotação de amplitude, sugere ao administrador ‘o que fazer’, dentro de uma visão ampla. Já ‘como fazer’ sugere ao administrador a figura do gerenciamento. Dentro de uma organização, pode-se aplicar o conceito de gestão para vários segmentos, como: gestão de recursos humanos, gestão da qualidade, gestão da produção, gestão do meio ambiente”.

 

Muitos podem confundir o termo “gestão” com “planejamento”, apesar de serem termos que se complementam, inclusive quanto às suas aplicações, entretanto um não substitui o outro, pois possuem referenciais de tempo distintos (SOUZA, 2003), o planejamento se adequaria a ações que seriam tomadas a médio e longo prazo, enquanto gestão seria aplicável em curto prazo.

 

Outros autores acreditam que embora existam vários significados para o termo gestão, um dos mais freqüentes seria o que foi utilizado pelo Plano Diretor Municipal do Recife-PE, (STEINBERG, 2001, apud, VERGARA, 1995:31), estabelecendo que: “processo que envolve o planejamento, a mediação, a regulação e a intervenção com base na pluralidade de interesses negociados entre os agentes”. Entende-se que estes agentes seriam, conforme Santos (1998 apud GRAZIA e QUEIROZ, 2001): o governo (Estado), as empresas, a população e as instituições (como a Igreja e as ONG´s), que atuam no espaço e interferem no meio ambiente, de maneiras distintas, e em maior ou menor proporção, de acordo com o seu poder, ou a dinâmica social.

 

Alguns autores quando tratam de gestão de resíduos sólidos preferem utilizar o termo gerenciamento, a exemplo de Mucelin e Cunha (et ali, 2005), quando fala que: “O sistema de gerenciamento de resíduos sólidos urbanos[6] (RSU) deve ser construído respeitando-se momentos metodológicos para minimização dos impactos ambientais e garantia de maior e melhor aproveitamento dos resíduos”. E quando considera que “(...) o gerenciamento de um sistema integrado e eficaz de RSU associa o uso de práticas administrativas de resíduos, com manejo seguro e efetivo e o mínimo de impacto sobre a saúde pública e o meio ambiente” (MUCELIN e CUNHA, et ali., 2005, apud OLIVEIRA, 2002; PASQUAL, 1998)”.

 

Quando se trata de estudar soluções para a questão da gestão dos resíduos sólidos, pode-se acreditar que estas estariam vinculadas: à questão de saúde pública; à preservação dos recursos naturais; a geração de energia; à economia; e se reflete no final, na qualidade de vida da população local, seja urbana ou rural.

 

A população, empresas, instituições juntamente com o poder público devem unir esforços e discutir de forma democrática e participativa a gestão da limpeza urbana, afinal o bom funcionamento deste serviço público, de forma igual e eficiente a toda a população é essencial para atingir os objetivos de qualquer programa de saneamento ambiental (IBAM, 2001).

 

Segundo Leme (1982, apud MUCELIN, et al., 2005) o planejamento de um sistema de limpeza urbana deve, para atender tal fluxo, tratar a questão de forma multidisciplinar, empregando os princípios de engenharia e também envolvendo economia, urbanismo local e regional e aspectos sociais. Deste modo, o sistema de limpeza urbana deve ser elaborado levando-se em consideração os impactos ecológicos produzidos pelos resíduos, sua correlação com a saúde, os modos de geração e a quantidade produzida.

 

De acordo com a SEMA (1995) entende-se por gerenciamento, ou gestão, da limpeza urbana, como:

“(...) o conjunto articulado de ações normativas, operacionais financeiras e de planejamento, que uma administração municipal desenvolve baseado em critérios sanitários, ambientais e econômicos, para coletar, tratar e dispor o lixo da cidade (...)”.

Uma definição encontrada para a gestão dos resíduos sólidos segundo Azambuja (2002, p. 27) é:

 

“(...) a combinação e otimização dos vários recursos disponíveis para alcançar, dentro de parâmetros ambientalmente corretos, os objetivos de: diminuir a geração dos resíduos,coletá-los, valorizá-los, tratá-los e dar a estes resíduos uma destinação final adequada (...)”.

Há autores como Leite (1999, p.73 apud AZAMBUJA, 2002) que tratando das diferenças entre gestão e gerenciamento de resíduos sólidos, diz que: a gestão “(...) abrange atividades referentes à tomada de decisões estratégicas (...) já o termo gerenciamento dos resíduos sólidos refere-se aos aspectos tecnológicos e operacionais da questão”.

 

5. O Manejo Sustentável dos Resíduos Sólidos

 

Algumas iniciativas governamentais têm sido consideradas de grande relevância em nível institucional como a criação da Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental, na estruturação do Ministério das Cidades (que incorpora as funções da antiga Secretaria de Desenvolvimento Urbano – SEDU, da gestão do Governo Federal anterior).

 

Alguns programas voltados para resíduos sólidos em municípios, de órgãos como os Ministérios das Cidades, do Meio ambiente, da Saúde e do Desenvolvimento Social, têm sido ajustados e redirecionados. Cita-se como destaque a criação do Comitê Interministerial para Inclusão Social dos Catadores, para articular programas de diversos ministérios voltados para catadores de materiais recicláveis nos municípios, sendo estes parceiros.

 

Outros assuntos importantes são a tramitação do projeto de criação da Lei Nacional de Resíduos Sólidos e da Lei Nacional de Saneamento.

Entretanto, segundo Oliveira (2002):

“(...)pode-se afirmar que o Brasil não dispõe, ainda formalizada (encontra-se discutida no âmbito do Congresso Nacional), de uma política nacional de resíduos sólidos, apesar de iniciativas isoladas nas três esferas do Estado ofertarem dezenas de leis, decretos, portarias e resoluções a respeito, porém sem uma diretriz lúcida, a que se possa dar o nome de política (....) É preciso entender que as atuais experiências brasileiras de segregação de resíduos na fonte (coleta seletiva) não surgem no contexto de políticas e diretrizes nacionais amplas e de longo prazo, mas sim a partir de motivação local (municipal), de vários âmbitos: filantrópico, econômico ou ecológico, na maioria das vezes.”

 

Esta premissa de Oliveira reafirma o importante papel da formulação de políticas e ações na gestão ambiental em nível local, conforme reafirmado por (MUCELIN, et al., 2005, apud JARDIM et al., 1995):

“os sistemas de limpeza urbana, de competência municipal, devem afastar o lixo das populações e dar um destino ambiental sanitariamente adequado, porém afastá-los dos olhos e destiná-los a céu aberto é o procedimento usual na maioria dos 5.500 municípios brasileiros. Os municípios enfrentam problemas como inexistência de uma política brasileira de limpeza pública, limitação financeira, arrecadação insuficiente, tarifas desatualizadas, falta de capacitação técnica, descontinuidade política, falta de controle ambiental e desinformações dos membros da comunidades que desconhecem os efeitos maléficos dos RSU não gerenciados por um sistema adequado.”

As discussões apresentadas reforçam, portanto, a necessidade de atenção para o sistema de limpeza urbana inserido numa estrutura mínima para o planejamento e gestão dos resíduos sólidos nos municípios brasileiros.

Segundo Ferreira (1986, apud FARIAS e FONTES, 2004) resíduo é o restante daquilo que sofreu alteração de qualquer agente exterior, por processos mecânicos, físicos, químicos, etc. Existe uma diferença básica entre o lixo e o resíduo sólido, que está relacionada ao seu reaproveitamento, pois para Demajorovick (1995: 89, apud FARIAS e FONTES, 2003): “resíduos sólidos diferenciam do termo lixo, porque enquanto este último não possui qualquer tipo de valor, já que é aquilo que é apenas descartado, aqueles que possuem valor econômico agregado por possibilitarem (ou estimularem) reaproveitamento no próprio processo produtivo”. O lixo pode ser o resíduo nos estados: sólido e semi-sólido, que resultam de atividades da comunidade de origem doméstica, industrial comercial, hospitalar.

 

Bidone e Povinelli (1999, apud AZAMBUJA, 2002, p. 23) afirmam que o termo resíduo sólido, que deriva do latim residuu, muitas vezes é empregado como sinônimo para lixo, e significa sobras de substâncias. No caso da terminologia “resíduos sólidos” seria empregado assim, acrescido de “sólido”, para diferenciar dos resíduos líquidos ou gasosos.

 

Quanto ao conceito de lixo e resíduo, de acordo com Calderoni (1998, apud AZAMBUJA, 2002), pode variar conforme a época e o lugar, e também depende de outros fatores econômicos, jurídicos, ambientais, sociais e tecnológicos, sendo que o termo ‘lixo’, é considerado como sinônimo de ‘resíduo’. No que se refere aos processos produtivos industriais normalmente se utiliza ‘resíduos’ como significado de ‘rejeitos’ ou ‘refugos’ (AZAMBUJA, 2002).

 

Lixo, de acordo com a NBR.1.004 – ABNT (1993, apud FUNASA, 2004):

“Resíduos nos estados sólido e semi-sólido, que resultam de atividades da comunidade de origem: industrial, doméstica, hospitalar, comercial, agrícola, de serviços de varrição. Ficam incluídos nesta definição os lodos provenientes de sistemas de tratamento de água, aqueles gerados em equipamentos e instalações de controle de poluição, bem como determinados líquidos cujas particularidades tornem inviável o seu lançamento na rede pública de esgotos ou corpos de água, ou exijam para isso soluções técnicas e economicamente inviáveis em face de melhor tecnologia disponível”.

 

 

Segundo Azambuja (2002) na linguagem técnica ou acadêmica se utiliza o termo “resíduo sólido” de forma mais comum, enquanto que o termo ‘lixo’ seria mais empregado na linguagem coloquial.

 

6. Considerações Finais

 

Com base nas referências estudadas pode-se concluir que a gestão do serviço de limpeza urbana constitui num importante e essencial serviço público municipal. Entretanto há uma série de exigências técnicas e normativas, bem como uma estrutura administrativa e para que haja eficácia, o que se refletirá no próprio bem estar e qualidade de vida da população.

 

Existem muitas iniciativas e programas desenvolvidos pelo poder público federal e também em alguns estados brasileiros a fim de fornecer apoio técnico e financeiro aos municípios. Pois muitos municípios ainda necessitam de capacitação e recursos. Uma política nacional referente aos resíduos sólidos, ainda em tramitação, pode é um fator positivo, porém muito mais será exigido dos municípios, em termos de estrutura técnica e administrativa, além de financeira.

 

A implantação de planos locais de reciclagem do lixo pode ser uma alternativa, que além de gerar renda contribui para a limpeza urbana. Estes planos que podem e devem ser feitos do poder público municipal, junto à população, as empresas e a sociedade civil organizada, podendo gerar resultados positivos.

 

A questão da educação ambiental, entretanto, é também de essencial importância para que se tenha uma menor geração de resíduos e seu manejo seja mais adequado conforme se promova uma maior consciência por parte da população e ações conjuntas que envolvam todos os membros da comunidade local. Porém, isto está ligado a uma política muito mais ampla para se alcançar a sustentabilidade a partir de uma sociedade menos consumista, que utilize com responsabilidade os recursos naturais e promova assim a preservação e o uso sustentável dos recursos naturais e ambientais no meio ambiente urbano e rural.

 

7. REFERÊNCIAS

 

 

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CARNEIRO, Alex Pires (Org.), et al. Reciclagem de Entulho para a Produção de Materiais de Construção/ Organizado por Alex Pires Carneiro, Irineu Antônio Schadach de Brum e José Clodoaldo da Silva Cassa. Salvador: EDUFBA/Caixa Econômica Federal, 2001.

 

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FUNASA - Fundação Nacional de Saúde. Orientações técnicas para apresentação de projetos de resíduos sólidos urbanos. Brasília: FUNASA, 2003.

 

 

FARIAS, Josivania Silva, FONTES, Luis Abelardo Mota. Gestão integrada de resíduos sólidos : o lixo de Aracaju analisado sob a ótica da gestão do meio ambiente.  Caderno de Pesquisa em administração . V. 10. n-2, p. 95-105. São Paulo, Abril/junho , 2003.

FERREIRA, Mário Lino de Souza. Proposta de um Sistema Alternativo de Coleta Seletiva de Resíduos Sólidos Domiciliares, Executada Por Catadores (Carrinheiros) na Cidade de Cianorte – Paraná. Dissertação (Mestrado em Engenharia de

 

GRAZIA, Grazia de, QUEIROZ, Leda Lúcia R.F. (et al). A sustentabilidade do Modelo Urbano Brasileiro: Um desafio. Rio de Janeiro, Projeto Brasil Sustentável e Democrático; FASE/IBASE, 2001.

 

 

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SOUZA, Marcelo Lopes de. Mudar a Cidade: Uma Introdução ao Planejamento e Gestão Urbanos, 2a ed., Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.

 

 

 

 



[1] Este artigo é parte do referencial teórico da monografia de especialização em Gestão Pública Municipal, do programa Gestão de Organizações, da Universidade do Estado da Bahia –UNEB.

[2] Urbanista e especialista em gestão pública municipal pela UNEB, Mestrando em Engenharia Ambiental Urbana - UFBA

[3] Os recursos naturais podem ser entendidos como, os recursos provenientes da natureza em seu estado bruto (a água, o ar, as florestas, e seus ecossistemas, etc.) enquanto que os recursos ambientais podem ser entendidos como aqueles provenientes da natureza transformada pelo movimento da valorização do espaço (a exemplo de canais de drenagem, represas, unidades de conservação de vários tipos, etc.) (GRAZIA e QUEIROZ, 2001)

[4] A Agenda 21 é um plano de ação formulado por lideranças de vários países do mundo, que traz diretrizes para vários setores como economia, saneamento, trabalho e renda, habitação, transportes, e outros para que se possa alcançar a sustentabilidade socioambiental no mundo, principalmente nos países em desenvolvimento (Agenda 21, 2004).

[5] Segundo Bidonr e Pivinelli (1999, apud AZAMBUJA, 2002): “... o aterro controlado difere um pouco do aterro sanitário por não dispor de impermeabilização e por não tratar o percolado, entretanto, recebe uma camada de argila para evitar a proliferação de vetores...”

 

[6] Trata-se dos resíduos sólidos cuja responsabilidade pela gestão e/ou o gerenciamento é do município (poder público municipal).