Brasília: a utopia desfigurada[1]

 

Por Fagner Dantas[2]

 

Palavras-Chaves: Brasília; Urbanismo-Brasil; Urbanismo Modernista; Utopia; Modo de Vida Urbano.

 

Sumário: Apresentação; 1. Um Pouco de História; 1.1. A Idéia; 1.2. À Espera da Realização; 1.3. Anos 50: a década que gerou Brasília; 2. O Plano-Piloto; 3. A Endocidade e o que restou da utopia de Brasília. 4. Bibliografia.

 

APRESENTAÇÃO. Agradecendo a oportunidade de participar desta edição comemorativa da Revista Urbano que toma por eixo a cidade de Brasília, trazemos a público este pequeno ensaio que reúne algumas reflexões sobre esta imensa invenção humana que é capital brasileira. Na verdade, Brasília é vista aqui como o ápice experimental de um processo de construção de um modo de vida urbano que espanta pela pretensão. Conforme ilustraremos, Brasília não nasce como forma de responder às questões práticas de sustentabilidade, como ocorre com o fenômeno urbano no momento em que ele irrompe dentro da evolução de um assentamento. Brasília não é o suporte de uma atuação antecedente. Brasília é antes a materialização de uma idéia. Mais que uma idéia, Brasília é a manifestação de uma Utopia. A Utopia da construção do futuro pela sua presentificação.

 

Utilizando uma metáfora bastante contemporânea, temos que numa experiência de clonagem, a partir do fragmento do indivíduo “A” implantado num indivíduo “B”, é possível produzir outro indivíduo A sem que haja nele resquícios do indivíduo B, haja visto não haver mescla gamética, como numa fecundação normal. Os artífices de Brasília tentaram clonar o futuro ideal retirando dele um fragmento imaginário (Brasília) e implantando-o no presente. Diversamente da clonagem, no entanto, havia resquícios do indivíduo “B”, ou seja, do presente, por todos os lados de nova cidade. A Utopia desfigurou-se por não se perceber que enxertar o tempo no espaço, ou seja, construir um pedaço de um futuro imaginado num presente de verdade não daria certo por desrespeito a uma regra básica: na prática, não se pode construir o presente a partir do futuro; somente o futuro a partir do presente.

 

O que resultou do desrespeito a esta regra? Um mundo pensado, mas não vivido. O estudo que se fará aqui da cidade de Brasília mostrará como a sua construção, ou antes dela, a sua idealização, remontava a uma negação da História. Construir Brasília era reconstruir o Brasil. Abandonar as raízes de uma nação desigual e marcada pelo subdesenvolvimento e partir rumo ao destino glorioso conquistado pela força vital do homem. Esta força vital é essencial para se entender o projeto nacional por trás de Brasília. Porém, para além do projeto institucional de desenvolvimento, havia as concepções ideológicas de seus projetistas. Seus artífices principais, o Presidente Juscelino Kubistchek, o Urbanista Lúcio Costa e o Arquiteto Oscar Niemayer são personagens que fizeram de Brasília seu palco principal. Contar a história desta cidade através da participação destas três personalidades já incorporadas à cultura brasileira é dar nome e sobrenome ao que nasceu sob a alcunha de contribuição nacional ao patrimônio planetário.

 

Porém, antes de iniciarmos este relato, é necessário traçar-lhe algumas diretrizes interpretativas. A complexidade do fenômeno urbano, e este é o foco do urbanismo unebiano que represento nas páginas desta grandiosa revista, tem em Brasília provas incontestáveis da sua força. Mostraremos neste ensaio que a cidade é muito mais que a sua manifestação física. Interessa-nos conhecer também a cidade enquanto representação sensorial. A cidade que além de imagem, tem som. Tem gostos, cheiros. A cidade que se sente de corpo inteiro, na brisa ou no calor escaldante. Porém, mais que tudo, interessa-nos conhecer a única cidade real para cada um de nós. A cidade enquanto patrimônio de memórias, depósito de sentimentos. A cidade viva em cada um de nós. Dentro de cada um de nós. A Endocidade.

 

Construir a Endocidade é vivenciá-la no Tempo. É descobrir seus nortes, suas direções. É dimensioná-la internamente, atribuindo significado a cada um dos seus espaços. É transformar locais em “Lugares”. É conectar o espaço ao tempo, ou seja, é associar a uma determinada localidade um determinado acontecimento, uma determinada passagem da história pessoal de cada um. A pluralização de pontos de destaque no interior da cidade faz com que esta mais facilmente penetre no interior de seus habitantes, constituindo uma relação de pertencimento que vitaliza o fenômeno urbano. Ressalte-se, no entanto, que não basta despejar sobre a cidade marcos urbanísticos de modo que, para onde quer que se vire, encontra-se um obelisco, uma praça ou um mirante. É essencial torná-los públicos, não no sentido de serem conhecidos, mas sim de serem entendidos como parte de um bem comum, de modo que todos possam sentir que aquele lugar lhes pertence, faz parte de suas vidas. Se isto ocorre, a recíproca tende a se estabelecer, com as pessoas se sentindo também pertencentes àquele local, sendo parte da vida daquele local.

 

Em grande parte, a vitalidade do fenômeno urbano está associada à potencialidade de se vivenciar o ambiente urbano em que se mora, em que se trabalha, em que, a priori, se vive. Vida é tomada, no entanto, aqui, para muito além do seu significado orgânico-biológico. Vida é tomada aqui na perspectiva do aforismo de Victor Hugo: “Os animais vivem; os homens existem”. Portanto, a vida humana é existência. E Existência é Tempo. Existir é dar significado às coisas e só se pode dar o que já se tem. Só podemos dar significado às coisas no momento em que dispomos destes significados, adquiridos através das muitas vias, formais e informais, de aprendizagem. E só podemos aprender com o Tempo. O Tempo Existencial. O Tempo de cada um.

 

Posto que já apresentamos a linha-mestra do nosso raciocínio, cabe expor a sua disposição neste ensaio que tem por foco principal o estudo da capital federal brasileira. A primeira parte é dedicada a uma Arqueologia Narrativa de Brasília, do surgimento da sua idéia matriz, ainda no início do Século XIX, passando pelos seus idealizadores modernistas, sua construção pelas mãos da massa de brasileiros pobres, os Candangos, e finalmente sua inauguração em 21 de abril de 1960. Na segunda parte, examinamos a idéia em si, ou seja, o Plano-Piloto criado por Lúcio Costa, ganhador do concurso internacional para a construção da nova capital brasileira. A intenção aqui é pôr em relevo as peculiaridades da cidade que se pretendia fazer e como estas peculiaridades refletiam o pensamento do seu criador. O estudo detém-se principalmente nas clássicas “anomalias brasilienses”. A terceira e última parte deste artigo introduz a questão da Endocidade no estudo de Brasília. Uma vez visto como esta cidade quis ser, nas duas primeiras partes, é hora de avaliar o que de fato ela é para seus habitantes. Uma vez que a arte expõe o demasiadamente humano, será possível viver cotidianamente, humanamente, dentro da obra de arte? Buscamos neste ponto construir esta telemetria psico-sensorial de Brasília para saber até onde a utopia foi antropizada. Imagino que esta é a melhor forma de apresentar o texto. Para quem quer se concentrar na história de Brasília são suficientes, a título introdutório, as duas primeiras partes. Para os que querem se aventurar um pouco mais na reflexão, ofereço a última.    

 

1.     Um Pouco da História de Brasília.

 

1.1.A Idéia.

 

Dão conta os historiadores brasileiros que o primeiro homem a suscitar a idéia da capital federal no interior do país foi José Bonifácio de Andrada e Silva, o mais importante político do período imperial brasileiro (1822-1889). Até então, o país havia tido duas capitais, ambas litorâneas. A primeira, Salvador, foi construída em 1549 e nascia, como Brasília, já com o propósito de ser capital, contando para tanto, inclusive, com um plano urbanístico trazido pelo Mestre-Construtor português Luís Dias e executado sob as ordens de Tomé de Souza, 1º Governador-Geral do Brasil-Colônia. Por força das circunstâncias econômicas (declínio do comércio de cana-de-açúcar, típico da região nordeste onde ficava Salvador; ascensão da atividade mineradora na região sudeste, onde se localizavam os estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro), a capital da colônia foi transferida para a cidade do Rio de Janeiro em 1760. A litoraneidade da colonização portuguesa no Brasil parecia sacramentar a desterritorialização dos habitantes do Brasil, ou seja, tinha-se sempre a impressão de que aqueles que aqui estavam não queriam romper os vínculos com a Mãe-Europa, podendo correr para os seus braços caso algo desse errado à medida que iam penetrando no interior da imensidão do Brasil. Essa característica da colonização portuguesa, também presente na anglo-saxônica, é destacada por Roger Bastides, sociólogo francês, num clássico estudo sobre o Brasil:

 

“(...) como a portuguesa, a colonização anglo-saxônica é, a princípio, uma colonização do litoral. Ambas agarram-se, inicialmente, às areias das praias como se temessem perder o contato com a metrópole, com a tradição européia”.[3]

 

A âncora memorial que restringia o povoamento brasileiro à sua borda atlântica desencorajava a localização interiorana do centro institucional de poder. Cumpre ressaltar, no entanto, que esta não era uma prática consagrada. Pelo contrário, a colonização espanhola deliberadamente renegava o povoamento litorâneo. Sérgio Buarque de Holanda, pensador brasileiro que como poucos conseguiu enxergar a alma nacional, destaca esta dicotomia entre os processos ibéricos de colonização:

 

“Ao contrário da colonização portuguesa, que foi antes de tudo litorânea e tropical, a castelhana parece fugir deliberadamente da marinha, preferindo as terras do interior e os planaltos. Existem, aliais, nas Ordenanças para Descobrimento e Povoação (Ordenanzas de Descubrimiento Nuevo y Población, documento de 1563 que determinava o procedimento para a colonização espanhola nas Américas), recomendações explícitas neste sentido”.[4]

 

Deste modo, fica claro que a idéia de uma capital no interior não estava fora do contexto da época. O que faltava era o sentimento nacional, na verdade, uma busca coletiva por uma identidade. Passo importante dado neste sentido foi a transferência para o Brasil da Família Real Portuguesa, em 1808, ameaçada pela expansão napoleônica na Europa. Residente na capital federal de então, o Rio de Janeiro, a família real e a corte que a acompanhou começaram a acumular no país transformações culturais que, reproduzindo em território nacional costumes europeus, por um lado desestigmatizaram a colônia, vista até então como mero apêndice anônimo do Império Português, e, por outro, nutriu um sentimento de identidade nacional que substituiu a carência da Europa enquanto referencial único. A história mostra, enfim, que os avanços em direção a este sentimento nacional alcançaram seu ápice com a proclamação de independência por D. Pedro II, em 1822.

 

O novo contexto político e principalmente social, no momento em que a população em geral, portugueses e outros migrantes, bem como, a seu modo, escravos africanos e etnias mestiças passavam a aceitar a idéia de que esta era a sua terra e aqui deviam construir a sua nova vida, abriu espaço para novas configurações territoriais de poder. Em 1823, José Bonifácio propôs a transferência da capital nacional do Rio de Janeiro para um lugar eqüidistante, no centro do território nacional. Ao lado das tradicionais justificativas militares (proteção contra ataques das esquadras navais, principais máquinas de guerra da época), Bonifácio integrou um argumento que sempre retornaria ao se falar na transferência da capital para o centro do país: a expansão do povoamento. No início do Século XIX, grande parte da população brasileira encontrava-se na faixa litorânea do território. O imenso potencial que tinha a pátria nascente precisava ser resguardado do abandono, principalmente no tocante a suas riquezas, ainda inexploradas. Com esta idéia na cabeça, Bonifácio convenceu seu irmão, Antônio Carlos de Andrada e Silva, redator da primeira Constituição Brasileira, em 1824, a incluir nela a proposta de transferência[5]. Não deixou, no entanto, de batizar a idéia: chamou a nova capital de Brasília.

 

1.2. A Espera da Realização

 

Ao longo do Século XIX, no entanto, a política nacional se viu envolvida em outras questões de ordem mais urgente, como revoltas e insurreições. Cabe destaque ao fato de que, ainda que não sendo posta em prática, a idéia da transferência da capital para o interior do país encontrava eco em personalidades políticas tão antagônicas quanto o autocrático Marquês de Pombal, político português com forte influência no Brasil Imperial, e o revolucionário José Joaquim da Silva Xavier, o Tiradentes, herói da luta pela independência nacional. Talvez a mais impressionante manifestação da permanência da idéia da nova capital nacional ao longo do século XIX tenha sido a suposta visão que dela teve o religioso italiano João Bosco. Segundo os intérpretes deste visionário, que posteriormente se tornaria o padroeiro de Brasília, a revelação do surgimento da nova capital teria ocorrido em 30 de agosto de 1883, num sonho. Nele, João Bosco, guiado por um anjo, atravessa o Planalto Central e via a Terra Prometida. A descrição que é feita deste sonho apresenta uma riqueza de detalhes (por exemplo, indica-se a posição geográfica da futura cidade, entre os paralelos 15­º e 20º; indica-se a presença de um lago, inexistente na época, que viria a ser o Lago Paranoá, criado durante a construção de Brasília) que certamente contribui para aumentar a mitologia em torno da fundação de Brasília.

 

Não se sabe até que ponto o sonho de João Bosco influenciou na permanência da idéia da transferência da capital, porém, quando finalmente, em 1889, o Marechal Deodoro da Fonseca proclama a república, mudando todo o arcabouço político-institucional do país, aquela idéia que tão bem transitou entre os pensamentos distintos, fortaleceu-se ainda mais, estando presente na nova constituição republicana de 1891. Em seu artigo terceiro, a Carta Magna reserva uma área de 14 400 quilômetros quadrados no Planalto Central brasileiro para a edificação da futura capital. Em função deste artigo, foi criada no ano seguinte a Comissão Cruls, chefiada pelo astrônomo Luís Cruls, que, em 1894, demarcou a área considerada adequada para a construção da nova capital, o que levou esta área a ser denominada “Quadrilátero Cruls”.    

 

Sacramentada a idéia na lei maior do país, sua execução era inexorável. Porém, a enormidade do esforço proposto, a insegurança na sua realização bem sucedida e a certeza da dilatação do prazo da obra por mais de um governo, circunstância que provoca repulsa aos governantes ávidos de inaugurações, fizeram com que o sonho demorasse a virar realidade. Os esforços acumulavam-se, incompletos. Foram organizadas, além da Comissão Cruls, outras duas comissões para delimitação do sítio da nova capital (1946 e 1953, esta última criada pelo Presidente Getúlio Vargas e chefiada, em 1954, pelo Marechal José Pessoal); o mandamento constitucional de 1891 foi repetido nas constituições de 1934 e 1937, além de ser indicado na Assembléia Constituinte de 1946. Dois presidentes chegaram muito perto do feito: Epitácio Pessoa, em 1920 (em 1922, uma pedra fundamental chegou a ser colocada no local destinado à capital, como que para dar início às obras, mas a empreitada não foi adiante), e Café Filho, em 1955 (decretos presidenciais chegaram a ser elaborados para dar início à construção, sem sair, no entanto, do papel). Do mesmo modo que a permanência da idéia de Brasília ao longo da história política nacional tornava previsível a sua concretização, a sucessão de tentativas frustradas diagnosticava que tão fabuloso engenho humano só poderia nascer de uma confluência de fatores econômicos, políticos e ideológicos de difícil, porém não impossível ocorrência. 

 

1.3. Anos 50: a década que gerou Brasília.

 

Esta confluência começou a dar sinais de vida no início da década de 50. Economicamente, o país atravessava um importante momento. Com o final da 2ª Guerra Mundial (1939-45), o Brasil detinha, como lembra o economista Luís Carlos Bresser Pereira, ex-ministro do governo brasileiro, “grandes saldos em cambiais estrangeiros que se acumularam neste período, face à drástica redução das importações durante a guerra”.[6] Em função disto, ele complementa: “O decênio imediatamente após a guerra (1945-55) é, portanto uma época de prosperidade econômica[7]. No campo político, um homem, um fenômeno de popularidade e carisma, um encantador arauto da modernização brasileira arrastava multidões durante a campanha presidencial de 1955. Juscelino Kubistchek, político mineiro, nascido na cidade histórica de Diamantina, e sustentado pelas elites estabelecidas no poder desde 1930, ganhou a corrida presidencial e inaugurou, com o início do seu mandato, em 31 de janeiro de 1956, uma nova era para o país. Assim, politicamente, a força com que o novo presidente é empossado o legitima para empreitadas expressivas, como foi a proposta de construção de Brasília. Porém, é no campo ideológico que as idéias do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) vão reforçar as forças de modernização nacional. Conforme aponta Juremir Machado da Silva, em estudo antropológico sobre a cultura brasileira:

 

“No Brasil dos anos 50, os intelectuais do ISEB, estudados por Renato Ortiz, adotaram o princípio de que a cultura era o devir, o não-feito, o edifício a construir, na contracorrente da tradição irracionalista e favorável à ordem da dominação. A cultura brasileira surgiria no amanhã, moldadas pelas mãos conscientes dos arquitetos do ideal”.[8]    

 

Neste contexto favorável, a figura de Juscelino torna-se uma peça fundamental na implementação definitiva de Brasília. Como afirmou José Carlos de Figueiredo Ferraz, ex-prefeito de São Paulo: “Tudo aguardava a época certa e o homem certo. O homem que romperia o manto da fantasia, o homem que quebraria as amarras da utopia. Surgiria, tempestiva e compulsoriamente, a figura ímpar que o País consagraria como um dos seus vultos maiores: Juscelino Kubistchek”.[9] A idéia da capital interiorana já rondava a cabeça de JK antes mesmo da sua eleição. Foi ainda durante a campanha eleitoral, em 4 de abril de 1955, que, em um comício na cidade de Jataí, estado de Goiás, conhecendo a idéia de Brasília, Kubistchek fez questão de prometer que, caso ganhasse as eleições, transferiria a capital para o centro do país. A proposta, vista pelos adversários como calcanhar de Aquiles da campanha por ser considerada irrealizável, acabou tornando-se uma das peças principais da sua vitória. Juscelino soube conduzir as adversidades que se impunham frente a esta tarefa hercúlea, transformando o que era acusado de delírio megalomaníaco em utopia de uma nação. As ofensas dirigidas por seus adversários contra a idéia da mudança da capital eram convertidas em provas de incredulidade não no candidato ou na idéia em si, mas na potencialidade do povo brasileiro em buscar o futuro. Com o uso intensivo dos meios de comunicação, Juscelino soube vender a ideologia de que a construção de Brasília significava a reconstrução do Brasil.  

 

Como se viu, não foi a implementação efetiva de Brasília fruto de uma evolução natural do povoamento brasileiro em direção ao interior do país. Tão pouco ela foi praticada como cumprimento de um mandamento legislativo, uma vez que constou em várias das constituições nacionais. Brasília foi o resultado, em parte, do vigor próprio da idéia que,  conforme ilustramos anteriormente, freqüentou as mais diversas mentalidades políticas e perdurou ao longo da história, quase que como uma sina a insistir na sua existência e na sua vitalidade perante as limitações que eram colocadas ao seu exercício. Brasília foi também, por outro lado, o produto desta equação improvável que uniu condição econômica, força política e comunhão ideológica, se não na construção de Brasília em si, ao menos no desejo de modernização nacional e inserção internacional. A liderança carismática de Kubistchek empurrou para a realidade a idéia de José Bonifácio, o sonho de Dom Bosco, as tentativas frustradas de Epitácio Pessoa e Café Filho. Mas que tudo, a figura de JK impôs ao povo brasileiro a utopia de construir no presente o país do futuro.

 

Em 1956, já no primeiro ano de mandato, Juscelino envia ao Congresso Nacional projeto de lei autorizando o início das ações de construção da nova capital federal. O projeto é aprovado por unanimidade, convertendo-se na Lei nº 2.874. Definida legalmente, a primeira ação significativa foi a escolha do chefe maior da missão de construir Brasília. Pelos destaques obtidos no campo da arquitetura e, principalmente, pelo caráter inovador e futurista que dava aos seus projetos, elementos essenciais para suprirem o desejo de modernidade do presidente, o escolhido foi o arquiteto Oscar Niemayer. Conhecido pela sua proximidade com o estilo modernista do franco-suiço Charles Edouard Jeannerette, mais conhecido como Le Corbusier, arquiteto mais consagrado de sua época, Niemayer aceitou a função de ser o principal idealizador das edificações de Brasília, dando a elas o caráter original que tanto Juscelino sonhava. No entanto, insistiu que o planejamento da cidade como um todo fosse feito através de um concurso público de idéias.

 

Dentre os participantes do concurso, havia o urbanista Lúcio Costa, antigo mestre de Niemayer, que, despretenciosamente, inscreveu o seu projeto no última dia permitido. A simplicidade da proposta de Lúcio Costa contrastava com os demais inscritos, como a Firma MMM Roberto, cuja proposta trazia extensos relatórios contendo as mais variadas análises. No entanto, o poder de argumentação de apenas uns poucos croquis feitos à mão e, principalmente, de um texto curto de apenas 11 páginas conquistou  a maioria dos jurados. É conhecida a lenda de que o material para a inscrição da proposta ganhadora teria custado apenas vinte cinco cruzeiros, rendendo a Costa um prêmio de dois milhões. É esta proposta, conhecida como Plano-Piloto, e que, juntamente com as imensas esculturas modernistas de Oscar Niemayer, deram a Brasília sua forma, que doravante examinaremos.

 

2.     O Plano-Piloto

 

Uma característica do Plano-Piloto é sempre referida por Lúcio Costa e sempre chama atenção, face a densidade da concepção de Brasília: segundo seu criador, o Plano Piloto foi resultado de um insight, uma idéia que tomou de assalto o urbanista, sem que o mesmo se detesse sobre longas elaborações teórico-arquitetônicas. Lúcio comenta que a idéia surgiu quase que pronta, quando este estava num cruzeiro marítimo. Tanto é assim que no início do texto que acompanhou sua proposta no concurso público que escolheu o projeto de capital federal, faz questão de salientar que estava “se desvencilhando de uma idéia que já surgiu quase pronta”. De fato, este caráter supra-humano que foi dado textualmente por Lúcio Costa, colocando-se como mero instrumento de uma força maior, contribui ainda mais para a mitologia em torno de Brasília, dando-lhe igualmente uma natureza sobrenatural desde sua origem. Por outro lado, reforça também a tese que aqui defendemos ao reforçarmos o paralelo inegável entre a idéia de Brasília e a utopia da cidade descoberta. O fato da idéia ter surgido “pronta” na cabeça de Lúcio Costa enseja a sua descoberta, o seu achado ao invés da sua invenção, da sua construção. Esta linha de raciocínio será recuperada adiante.

 

Estabelecida a origem da idéia do Plano Piloto, vejamos a sua representação gráfica. Segundo Lúcio Costa, o ponto de partida para a concepção da cidade seria o Estado Democrático de Direito. Assim, a Praça dos Três Poderes teria sido, segundo Lúcio, o ponto de partida para o traçado da cidade. A forma de um triângulo equilátero demonstrava o equilíbrio necessário, a igualdade essencial no comando dos destinos do país. Outra coisa que chama bastante atenção quando se observa Brasília, principalmente a vista geral do Plano Piloto, é a semelhança da imagem com um avião. O avião bordado pelo perfil do Plano Piloto seria uma manifestação da modernidade que o Presidente Kubistchek queria impor ao Brasil. De fato, a semelhança é inegável. O longo Eixo Monumental sustentando as Asas Sul e Norte da Cidade e tendo num extremo a Praça dos Três Poderes como uma verdadeira cabine aeronáutica, a guiar a capital e a nação. Esta comparação, bastante óbvia, é, porém, uma das coisas que mais irritava o seu criador. Segundo Lúcio Costa, nunca foi sua intenção projetar uma cidade em forma de aeronave, muito menos com intenções subliminares de expressar a ideologia desenvolvimentista de JK. O único objeto voador que o mestre urbanista aceitava como comparável à sua obra era a borboleta. Na graciosidade desta alegoria, Lúcio certamente enxergava mais a poesia idealizada, a mesma poesia que o fizera ganhar o concurso, do que o concreto progressista.

 

Uma cidade que nasce conceitualmente quase acabada na mente de um homem que se diz mero detentor, mas não elaborador da idéia; cuja representação pode inspirar a inexorabilidade do progresso ou a delicadeza de um presente idealizado; uma cidade que força a elevação do pensamento, que não meramente se expõe, mas que efetivamente cobra uma reação à cada um que a presencia. Brasília é um feito. É imaginada sem pudores da sua pretensão de eternizar-se. Não vem para ser moradia ou demarcar espaços mas para conquistar o tempo. Ao falar de Brasília, Lúcio Costa é explícito neste aspecto. O que se queria ali era o definitivo. Apesar da história conter duas mudanças anteriores da capital federal, Brasília deveria romper mais uma vez com a história. Nada à época da sua construção lhe podia ser espelho. Brasília sonhava ser a miragem almejada e nunca alcançada por outras cidades ou, no mínimo, redefinir o horizonte-meta do planejamento urbano futuro. Lúcio afirmava não ter se guiado por nenhum modelo pré-existente de cidade. O passado, o já feito, o patrimônio em nada acrescentava à idéia da nova capital. Brasília era o Alfa e o Ômega, o início e o fim. Somente o futuro, o futuro conquistado e não aguardado, devia servir de conteúdo à concepção de Brasília. É neste contexto que Brasília se constrói como cidade-símbolo. De fato, no seu início, mais símbolo do que cidade, conforme voltaremos a analisar.

 

Apesar deste desejo bem expresso de descolar-se da história, Brasília, e efetivamente seus mentores intelectuais, Lúcio Costa e Oscar Niemayer, não eram seres em si mesmo a-históricos, obtendo seus referenciais na vala comum da realidade vivida e conhecida, ainda que deles fazendo uso mais original. Amigo de Le Corbusier, Lúcio Costa tinha a sua própria releitura da arquietura e do urbanismo modernistas do mestre europeu. Nem por isso haveria de se negar, na genealogia de Brasília, a forte presença das teses defendidas nos Congressos Internacionais de Arquitetura Modernista, os CIAM’s. Com participação efetiva dos brasileiros Lúcio Costa e Oscar Niemayer, os CIAM’s, cuja primeira edição ocorreu ainda em 1928, definiram a arquitetura e o urbanismo do século XX e não se há de negar que Brasília, sendo ou não deste um exemplo ortodoxo, foi a sua mais significativa criação. As diretrizes estabelecidas pelo urbanismo modernista, agrupadas num documento-síntese, a Carta de Atenas (1933), redigida finalisticamente pelo próprio Le Corbusier, serviram com base para alguns dos principais mandamentos da construção de Brasília. As longas retas, desenho favorito de Le Corbusier (com o qual Niemayer tendia a se afastar em favor da sinuosidade tão flagrante em seus prédios), a valorização do espaço aberto (ensolação e ventilação adequados eram critérios básicos para o urbanismo modernista) e principalmente o zoneamento (a segregação absoluta das funções urbanas, definidas como habitar, trabalhar, recrear e circular) são alguns dos elementos que, integrantes do ideário dos CIAM’s, ajudam a entender a reestruturação da idéia mesma de cidade proposta na construção de Brasília. Destacamos entre estes os dois primeiros para um rápido exame, visto que apresentam aspectos inusitados, além de já ser bastante difundida a análise do zoneamento modernista.     

 

As longas retas e o privilégio à estética automobilística (a industria automobilística foi a mais destacada na época de JK)  são marcas registradas do desenho de Brasília. Mas que isso, no entanto, o que chama a atenção, virando quase que um folclore nacional, é a famosa “ausência de esquinas”. O fato é que a esquina é quase uma instituição urbanística brasileira. A esquina é o ponto preferencial de encontros, é um ponto de convergência, onde o movimento e a troca de informações e sensações é caracteristicamente intensa. Inadvertidamete, preferimos acreditar, a obsessão pela igualização do modo de vida urbano de Brasília, conforme pensado por Costa e Niemayer, acabou por ter como primeira vítima o âmbito preferencial da diversidade: a esquina. É auto-explicativa a seguinte passagem da obra de James Holston, antropólogo norte-americano que realizou trabalho fundamental sobre a concepção e a vivência da capital federal: “Brasília ‘não tem esquina’. Esta observação aponta para a inexistência, em Brasília, de todo um sistema de espaços públicos que as ruas tradicionalmente instituem em outras cidades brasileiras;(..)”.[10]  

 

A inexistência de cruzamentos e, por sua vez, a exclusividade de passagens em desnível ou simplesmente a completa anulação de supostos obstáculos à livre circulação de carros (note-se que hoje em dia, como se verá adiante, Brasília tem momento de congestionamentos como outras cidades brasileiras) é uma das causas de maior estranhamento dos moradores de outras cidades que aportam na capital federal. A desorientação inicial é inevitável. Não se sabe exatamente como se deslocar, mesmo num automóvel, sem destoar de um intrincado sistema de viadutos e transversais descontínuas. Porém, como lembra Holston, o efeito mais pernicioso desta reconfiguração da lógica urbana tradicional é o apagamento de pontos de destaque tão consagrados como são as esquinas. Mais que um espaço de encontro, a esquina é parte de um alfabeto de sociabilidade, conectado que está com a rua comercial, com as praças, com as feiras livres e assim por diante. Elementos como estes, uma vez retirados do contexto em que se vive, ainda mais quando se é um migrante que tem tais elementos como basilares nas suas relações emocionais travadas no espaço, provocam inexoravelmente um desarranjo mental.  

Porém, não só de esquinas (ou da ausência delas) vive o espaço transformado de Brasília. Outra importante mutação em relação às cidades ditas tradicionais é a resignificação do que se entende por Espaço Público. Alinhada com as teses modernistas, que preconizavam o espaço aberto como fundamental para a ensolação e a ventilação necessária, Brasília ocupou drasticamente o seu território com imensas extensões de gramados. A intenção inicial de Lúcio Costa ao propor estas grandes áreas verdes foi proporcionar amplas áreas de convivência, tanto é assim que, tipologicamente, algumas dessas áreas verdes são concebidas como parques, não obstante em nada se pareçam com o conceito tradicional de parque. Não há trilhas para pedestres, não há ciclovias, não há equipamentos urbanos. São simplesmente enormes retângulos de grama que dão um tom ainda mais estéril à capital federal. O habitante de Brasília rejeitou estes espaços, avaliando-os como desprovidos de qualquer uso que justifique suas dimensões. Assim, a tentativa de, inibindo a permanência em casa mediante a resignificação do espaço privado, que veremos a seguir, acabou não resultando numa nova concepção, internalizada pela população, de espaço público.                      

 

Entender Brasília é sem dúvida entendê-la para além de seu projeto. As concepções de seus artífices, inicialmente postas como indeclináveis, podiam tentar preservar uma idéia, mas esta, como todas aliais, exprime o tempo em que foi gerada (o que fica claro quando superpomos o Plano-Piloto e a Carta de Atenas modernista. A medida que este tempo passa, porém, fica mais difícil a convivência entre o idealizado e o realizado, e mesmo entre o sensível (construído a partir do idealizado) e o vivido (duplo perceptivo do realizado). É sobre esta antinomia, que em grande parte explica Brasília em termos contemporâneos, que iremos nos debruçar na terceira e última parte deste artigo.                 

 

3. A Endocidade e o que restou da Utopia de Brasília    

 

A endocidade, como já se abreviou, é a construção mental que, a partir de referenciais próprios, cada uma faz do ambiente em que vive, explicitamente neste caso, da cidade em que mora. De fato, não é possível imaginar que a percepção possa passar incólume diante da torrente nervosa que é a vida na grande cidade. O exame de Georg Simmel no início do século XX pôs às claras o impacto que tem sobre a consciência humana a pluralidade de estímulos a que está submetido o homem. Da nossa parte entendemos que, apesar do pessimismo da análise de Simmel (de onde se destaca a caracterização da atitude “blasé”, a imparcialidade como forma de defesa diante da involuntariamente intensa inter-relação no meio urbano), a vida na cidade não redunda necessariamente num entorpecimento das relações, mas sim a uma seletividade mais apurada, em função do excesso de oportunidades de contato a que se está sujeito. Esta seletividade, no entanto, se estende para além das pessoas, ecoando na relação com o meio.

 

A desumanização da unidade espacial usada como referência (a metrópole) seria supostamente inegável. Entre em cena a velha contradição entre meio urbano e meio rural com a missão de deixar expostas as antinomias existentes entre os dois modos de vida. O fato é que, quando se usa a referência da vida interiorana, das comunidades primárias, onde o contato era “olho no olho” e a população como um todo galvanizava uma intrincada e inter-impactante rede social, a primeira reação é considerar este tipo de vida o mais “humano”, no sentido de ser qualitativamente conduzido pelo sentimento, pela afetividade, pela emoção. O meio urbano, dentro desta dicotomia, é visto como frio, insensível, pautado na racionalidade implícita nas relações utilitaristas. Desumano, portanto. O elemento humano aqui é visto, então, como régua de graduação entre os níveis de interação, com intenso teor axiológico, visto que o demasiadamente humano é a síntese virtuosa enquanto que o desumano é a negatividade em essência.

 

A distância que separa este mundo dicotômico da nossa realidade interseccional é imensa, levando-se mesmo ao questionamento do porquê mencionar visão tão anacrônica para falar de um símbolo de modernidade como é Brasília e como se propõe que seja o conceito de endocidade (este resvalando já em diretrizes interpretativas caras à pós-modernidade, no sentido de privilegiar a experiência em relação à idealização. A menção se faz necessária quando se analisa a relação inegável entre a utopia e Brasília. Citada diversas vezes no mesmo contexto, Brasília é majoritariamente vista como a manifestação de uma utopia que pretendia extrair do futuro as garantias de benesses no presente. No entanto, Brasília tem, como a maioria das utopias civilizatórias, que prescrevem formas mágicas de aperfeiçoamento social sem passar por um árduo processo de evolução das estruturas existentes no presente, uma clara intenção de religação entre os homens. Há algo de “busca de um paraíso perdido” em toda utopia. Este paraíso tem inegáveis raízes num Éden inesgotável de desejos satisfeitos (com destaque para o domínio da carência biológica - o “natural” do homem - e da limitação biosférica – a “natureza” da Terra), mas também almeja uma comunhão primitivista, um igualitarismo tribal. Neste sentido, transparece a idéia de que, idealizando um mundo ruralizável em suas relações humanas, desurbanizar-se-á uma realidade estéril calcada no distanciamento interpessoal.    

 

Brasília optou por reverter este distanciamento por um ambicioso plano de ressocialização pela via do projeto urbanístico-arquitetônico. Fica bem evidente a concepção de que se pode modificar o homem, reinstruí-lo enquanto partícipe de uma coletividade, enfim, moldar o conteúdo a partir do continente, tal qual crianças que se divertem vendo os diferentes formatos da água a depender do recipiente em que ela esteja. De certo não se pensou que os homens são mais irredutíveis e, principalmente, mais reativos dos que um simples composto molecular como o H2O. A utopia desfigurou-se ao lidar com gente, matéria de difícil controle e quase nenhuma previsibilidade. Mostras disso nos dá o exame que se faz da construção da endocidade em Brasília.

 

O vivenciamento essencial à construção da endocidade foi extremamente tolhido no projeto original de Brasília. Dão conta disto a sensação de deslocamento, de estranhamento e desconforto que recepcionava todos aqueles que, chegando das cidades ditas “normais”, não encontravam nada que pudesse julgar familiar. O conceito de rua era diferente; de bairro, de bar; o conceito de vizinho, de amizade foram retorcidos; até mesmo o conceito de quem era o “outro” foi implodido, uma vez que Brasília pretendia desdiferenciar os indivíduos, todos morando em iguais condições. Esta antinomia sensorial e conceitual resultava numa sensação descrita pelos novos habitante daquela cidade como “Brasilite”. Assim, dizia-se que alguém que chegava a Brasília, sempre teria o seu período de Brasilite, manifesta na sensação de inadequação ao lugar em que se está.

 

No entanto, a força individualizadora do homem logo cedo o levou a propor o fim desta prisão aberta. Uma prisão para seu comportamento, que o fazia se sentir desconfortável mesmo executando as mesmas práticas de sempre, tentando entender Brasília como se entende uma cidade, sem se dar conta que, como se costuma dizer: “Em Brasília, cidade é outra coisa”. De fato, uma memorial de sensações, angariado graças àquela seletividade mais apurada, referida anteriormente, que a vida urbana exige, só foi possível de ser constituído com uma mudança fundamental na história social de Brasília: a eclosão de uma geração eminentemente brasiliense.

 

A importância do fator geracional para se entender as possibilidades de formação da endocidade, e, portanto, de vivificação do espaço urbano, acentua-se em Brasília no momento em que a Brasilite deixa de ser endêmica. Os novos habitantes não apresentam os sintomas do desconforto sensorial porque tem naquela estrutura, tão diferente à terra natal de seus pais, o único referencial de cidade. Não há como se negar o único. Não há o que se estranhar quando não há o “outro”. A geração brasiliense, que começou a surgir no início da década de 90 e, da segunda metade em diante, se consolidou, com mais de 35% dos moradores de Brasília sendo nascidos lá, teve que reinventar suas codificações, lidando com a idealização paterna do que seria cidade e com a auto-experiência do que é cidade. A endocidade perfectibiliza-se no momento em que o Tempo Existencial passou a ser contado a partir de referenciais próprios, podendo então se falar numa história local e não numa história “do local”, a que até então estava restrita Brasília. O exemplo mais emblemático disso foi Brasília, acostumada à sina de não ter esquinas, passar a tê-las, improvisadas, contrariando o projeto original, mas, mesmo assim, esquinas, ainda que típicas esquinas brasilienses.

 

O que restou desta utopia de se construir o futuro no presente? O que restou da idéia de aproximar os homens ignorando suas diferenças? O que restou de Brasília enquanto legado para a Humanidade? Esculpida na memória mundial (tendo sido considerada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, em 1987), Brasília restou transformada, ao invés de transformar. Considerada pela Revista Time como “ultrapassada enquanto estilo arquitetônico”, a cidade não é mais um paradigma de assentamento urbano, se é que um dia jamais foi. Há muito que se aprender, no entanto, com a desfiguração da utopia de Brasília. Dentre todas, a mais forte de suas lições é que o homem não pode negar o seu papel histórico que é o de constantemente descobrir a si mesmo e, com isso, redescobrir o meio em que vive. A descoberta de si mesmo, a aceitação da endocidade enquanto elemento válido de relação com o ambiente urbano, enriquecendo esta relação pela sua qualificação existencial e não pela sua artificialização midiática (o grande perigo de nos tornarmos “espectadores que abriram mão de encenar a própria vida”) é parte fundamental da vivificação de Brasília para muito além do que imaginaram Kubistchek, Costa ou Niemayer. Talvez ensinar isto pelos seus erros tenha sido a maior virtude deste sonho chamado Brasília.     

 

4. Bibliografia.

 

BASTIDES, Roger. Brasil, Terra de Contrates. 9ª Ed. São Paulo: DIFEL, 1979. 

BRESSER PEREIRA, Luís Carlos. Desenvolvimento e Crise no Brasil: 1930-1983. 16ª Ed. São Paulo: Brasiliense, 1983.

FERRAZ, José Carlos de Figueiredo. Urbs Nostra. São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1991.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.  

HOLSTON, James. A Cidade Modernista: uma crítica de Brasília e sua utopia. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.    

 SILVA, Juremir Machado da. Anjos da Perdição: futuro e presente na cultura brasileira. Porto Alegre: Ed. Sulina, 1996.

 

 

 



[1] Texto exclusivamente elaborado para a edição especial sobre Brasília da Revista Urbano. Além dos muitos colaboradores, presenciais e bibliográficos, remeto especial agradecimento a Augusto César B. Areal, de cujo site brilhantemente concebido (www.historiadebrasilia.com.br) foram emprestadas valiosas informações e as maravilhosas fotos que ilustram este ensaio.

[2] Urbanista formado pela Universidade do Estado da Bahia/Brasil (1996-2001); Autor de extensa monografia sobre o histórico das formações sócio-urbanas – “A (R)Evolução da Urbanidade” (2001); Consultor Urbanístico nos Planos Estratégicos Municipais para Assentamentos Subnormais – PEMAS dos municípios de Feira de Santana (2001), Candeias (2001) e Santo Amaro (2002), na Bahia; Consultor Normativo-Institucional para o Plano Diretor de Desenvolvimento do municípios de Ruy Barbosa, na Bahia (2002-03). Sócio-Fundador e Diretor de Produção Científica da Sociedade Brasileira de Urbanismo (2003-05); Colaborador da Revista Urbano, da Universidad de Bio Bio. 

 

[3] BASTIDES, Roger. Brasil, Terra de Contrates. 9ª Ed. São Paulo: DIFEL, 1979. p. 22.

[4] HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 99. 

[5] Há uma clara controvérsia entre as fontes bibliográficas e jornalísticas sobre este ponto. Todos são unânimes em afirmar José Bonifácio como o primeiro a idealizar uma capital no interior, apesar de, isoladamente entre as fontes pesquisadas, Augusto César B. Areal citar Hipólito José da Costa como o primeiro a defender a idéia, no início do século XIX. Quanto a sua integração constitucional, a quase totalidade afirma ter sido na Constituição Republicana de 1891 a sua primeira aparição. Optamos pela narrativa da Revista Veja (“A Vida na Maquete”, edição de 13 de janeiro de 1999, págs. 66-71) que fala apenas na inclusão da idéia “na primeira Constituição brasileira”, sabidamente a Constituição Imperial de 1824, escrita pelo irmão de José Bonifácio, pai da idéia.     

[6] BRESSER PEREIRA, Luís Carlos. Desenvolvimento e Crise no Brasil: 1930-1983. 16ª Ed. São Paulo: Brasiliense, 1983. p. 38.

[7] Idem. p. 39.

[8] SILVA, Juremir Machado da. Anjos da Perdição: futuro e presente na cultura brasileira. Porto Alegre: Ed. Sulina, 1996. p. 70.

[9] FERRAZ, José Carlos de Figueiredo. Urbs Nostra. São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1991. p. 392.

[10] HOLSTON, James. A Cidade Modernista: uma crítica de Brasília e sua utopia. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. p. 113.