SBU - Sociedade Brasileira de Urbanismo

O Urbanismo

O Urbanismo surgiu entre o final do séc. XIX e o início do séc. XX, com a necessidade de intervenções nas cidades que sofriam com o grande aumento da população, em função do êxodo rural, a insalubridade, problemas de habitação e de circulação, à época da revolução industrial. A sua maturidade teórica só foi alcançada em meados do século XX. O termo urbanismo teria surgido com o seu atual significado[1] em 1868 quando Ildefonso Cerdá escreveu a Teoria General de la Urbanización. Contudo existem outras versões para o surgimento do termo Urbanismo. Segundo Bardet (1990) este termo surgiu por volta de 1910, na França, no Bulletin de la Societé Geographique, para denominar uma “nova ciência” que se diferenciava das artes urbanas anteriores por seu caráter crítico e reflexivo e, pela sua pretensão científica, sendo, epistemologicamente, o estudo da cidade (urbe, do latim significa cidade). 

O Urbanismo pode ser entendido como um campo do conhecimento multi e interdisciplinar voltado ao ordenamento da cidade, de suas atividades distribuídas no território a fim de que sejam alcançada melhor qualidade de vida para a população.

Outra versão para o surgimento do termo é a de que, teria sido em 1910 num congresso realizado em Londres, onde se reuniram todos os pioneiros do urbanismo. Foi nesse ano que teria se utilizado pela primeira vez o termo Urbanismo e que se realizou a primeira exposição de Urbanismo, que teve lugar em Berlim. Em 1933, no Congresso Internacional da Arquitetura Moderna - CIAM em Atenas estabeleceram-se os princípios do Urbanismo Moderno, surgindo pouco depois a Carta de Atenas, que se formaram “em função de novas técnicas de construção e do estilo de vida e das necessidades próprias de homem do séc. XX”, que seriam as funções estabelecidas pela Carta de Atenas (Habitar, Circular, Trabalhar, Cultivar o corpo e o espírito) (CHOAY, 1965).

Os princípios básicos do Urbanismo Moderno, resultantes das discussões dos CIAM, que resultaram na Carta de Atenas são (CHOAY, 1965):

  • O descongestionamento do centro das cidades;

  • O aumento das densidades;

  • Aumento dos meios de circulação;

  • Aumento das áreas verdes.

    Tais princípios foram bastante difundidos por todo o mundo, dentro da corrente denominada de Urbanismo Moderno, e por muitos anos nortearam os planos urbanísticos e intervenções em várias cidades.

 

Os Os estudiosos e teóricos do Urbanismo buscavam uma cidade ideal, planejada de    maneira que cumprisse com suas funções sociais e tivesse um desenho que permitisse o seu ordenamento, mediante os princípios estabelecidos. Preconizava-se uma cidade salubre, e uma espacialização das atividades de trabalho, de lazer, de habitação e a circulação de maneira a se alcançar um ordenamento do seu espaço. Daí surgiram vários pensamentos e teorias sobre a cidade ideal, como a cidade jardim, idealizada por Ebenezer Howard, a cidade industrial, idealizada por Tony Garnier, dentre outros pensadores. Entretanto havia uma preocupação maior com a forma urbana e com o planejamento físico-territorial.

Vale ressaltar que também existiram outros congressos internacionais que culminaram em discussões, que também trouxeram princípios ao Urbanismo, como os CIRPAC (que aconteceu na época dos CIAM´s) e a Carta de Machu Pichu.

Houve muitas críticas ao modelo de desenvolvimento urbano, ou de planejamento urbano, tecnocrata, trazido pela Carta de Atenas, e foram apresentadas críticas e sugestões. A Carta de Machu-Pichu, por exemplo, foi uma contraporposta, que trouxe críticas ao conteúdo da Carta de Atenas, principalmente ao rígido zoneamento funcional das atividades. A Carta de Machu-Pichu foi elaborada em 1977, por estudiosos da questão urbana, especialmente sul americanos, mas também de outras partes do mundo. Propunha uma integração polifuncional  e contextual do espaço urbano, ao invés das funções (usos do solo) segregadas sem flexibilidade quanto à sua localização, e considerava também que “a qualidade de vida e a integração com o meio ambiente natural devia ser um objeto básico na concepção dos espaços habitáveis”.

A partir dos anos cinqüenta (séc. XX) deu-se um  avanço no estudo e na prática do Urbanismo, motivado por uma necessidade de renovação das cidades no período pós-guerra. Houve também uma explosão de idéias e doutrinas teóricas. O urbanismo era o centro das atenções de arquitetos, engenheiros, geógrafos, sociólogos, historiadores, filósofos e escritores nesta época.

Com o passar do tempo o Urbanismo ultrapassou largamente a esfera do ordenamento físico-territorial (ou morfológico), não sendo a simples ciência do engenheiro ou do arquiteto. Deve abarcar o campo da comunidade, da participação no planejamento, da planificação social, tendo em conta que a cidade reflete o estado da sociedade e nela é expressa também uma determinada concepção do mundo.

Há alguns anos surgiu uma corrente denominada New Urbanism (Novo Urbanismo), nos anos 80 do séc. XX , que resgata alguns princípios do Urbanismo Moderno, resgatando experiências passadas. Ele traria princípios para reordenar o ambiente construído de cidades, vilas, bairros e unidades de vizinhança. O chamado Novo Urbanismo pode ser considerado como voltado para um planejamento físico-territorial, tido por muitos como clássico e elitista, mais restrito, talvez por isto é que o Congress of New Urbanism (1999), realizado nos EUA, incorra da sua abertura interdisciplinar (SOUZA, 2002)

Os princípios do chamado Novo Urbanismo estariam ligados a referenciais teóricos de décadas passadas, que foram bem sucedidos em alguns momentos e defendidos por estudiosos como Aldo Rossi e Leon Krier (MUNIZ, 2005). Tais princípios se contrapõem em alguns pontos, à idéia de modernidade contida na Carta de Atenas. Defende-se a diversidade no espaço urbano, e a rua como local de convivência e de vida urbana, e  de cidadania. Assim se teria uma real integração entre a população e a cidade que nela vive. A escala humana é valorizada, assim como a qualidade de vida do espaço urbano, com enfoque na escala local, da comunidade, ou bairro.

 

Podemos citar  como os princípios gerais defendidos pelo Novo Urbanismo:

  • Diversidade no uso do solo urbano e na ocupação deste solo por várias classes sociais;

  • Prioridade para o pedestre, assim e espaço urbano seria adequado ao pedestre, sem excluir o automóvel. Há aí uma preocupação com a acessibilidade, especialmente a pé;

  • Preocupação com a qualidade arquitetônica e como projeto paisagístico. A valorização da estética e conforto insere-se neste princípio.

     Outros pontos a serem destacados são:

  • A estrutura de bairro no centro da filosofia de planejamento rege em nível local ou regional;

  • As unidades de bairro definidas como ambientes onde se dão as atividades humanas;

  • Destaque para os edifícios públicos e vizinhanças compactas;

  • Aumento da densidade em relação aos subúrbios esparsos, porém sem se estimular o grande adensamento;

  • Ligação entre os bairros através de corredores de transporte, e do transporte inteligente com rede de transporte de alta qualidade através de trens urbanos;

  • Os nós do sistema de transporte público e as concentrações de serviço formariam as áreas centrais entre os bairros;

  • A organização física da região deve ser suportada por estrutura de alternativa de transporte de modo a reduzir o uso do automóvel;

  • Utilização de tecnologias que respeitem o meio ambiente, com eficiência energética.

Contudo há de de lembrar que a cidade ideal é fruto dos valores éticos, filosóficos e sociológicos de cada cultura e de cada época. As teorias da cidade evoluem e enriquecem, por isso é difícil saber como é a cidade ideal, já que algum tempo depois da sua definição ela já não vai corresponder às expectativas da época. O Urbanismo não pode ser observado apenas sob o ponto de vista de uma área do conhecimento, ou de uma ciência estática, pois necessita de ser estudado segundo um panorama sociológico, filosófico, histórico, etc. sendo que o espaço urbano é resultado da sociedade que a cria e que a transforma a cada momento. è fruto também de fatores políticos.

O espaço urbano está em permanente transformação, embora se for observado durante um curto período de tempo possa parecer estático. O urbanista tem que ser capaz de formular cenários futuros sobre o espaço urbano, de modo a conseguir criar as melhores condições de vida nas cidades. Os habitantes das cidades sempre se interessaram em saber as origens do local onde habitam, de conhecer o seu patrimônio. Historiadores entendiam a cidade como resultado da evolução das formas urbanas, ou seja, da sua evolução morfológica. O Urbanismo deve enveredar pelo planejamento urbano e regional, habitação, gestão urbana, transporte público, estudos ambientais, desenvolvimento de comunidades, notadamente não se prendendo a aspectos puramente físico-territoriais ou estético-funcionais, pois envolve questões que ultrapassam tais aspectos pois tem que haver atenção para as questões sociais e econômicas.

 


[1] (1) “... el urbanismo es definido como " el conjunto de conocimientos que se refieren al estudio de la creación, desarrolo, reforma e progreso de los poblados en orden a las necesidades materiales de la vida humana" y urbanizar " convertir en poblado una porción de terreno o prepararlo para ello, abriendo calles y dotandolas de luz, empedrado y demás servicios municipales"(CORREA, Antonio Bonet, 1989, p.6) . 

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